A revista Scientific American Brasil publicou uma matéria super interessante sobre o envelhecimento, mostrando dados reais que maconha pode ser sim coisa de velho.

Envelhecer faz parte do ciclo natural da vida de qualquer ser humano. Não há como escapar, pelo menos por enquanto. O processo pode ser definido pelo acúmulo, em função do tempo, de mudanças fisiológicas com repercussões negativas sobre o desempenho físico e cognitivo. Em outras palavras, é o principal fator de risco para as doenças. Quanto mais velhos, maior a chance de adoecermos.

Neurotransmissores, que permitem a comunicação entre células do cérebro, diminuem em quantidade conforme o número de aniversários que comemoramos. Tais perdas são ainda mais marcantes nos distúrbios neurodegenerativos.

A anandamida (do sânscrito “alegria, felicidade”) e o 2-AG (2-araquidonoilglicerol) estão entre os neurotransmissores que mais minguam com o passar dos anos.

Ambos foram descobertos na década de 1990 pelo cientista radicado em Israel Raphael Mechoulam e equipe. Por serem produzidos pelo próprio corpo, foram batizados de endocanabinoides (do grego “o que vem de dentro, interno”).

Endocanabinoides, as enzimas que catalisam sua produção e degradação, e os receptores aos quais se ligam nas membranas das células formam o sistema endocanabinoide.

Onipresente nos tecidos centrais eperiféricos, o sistema endocanabinoide conecta o sistema nervoso ao imunológico e digestório e regula uma infinidade de processos neurofisiológicos, tais como apetite, memória, sensação de dor etc.

Endocanabinoides influenciam a atividade neuronal, a formação de novos neurônios e têm papel neuroprotetor. Camundongos modificados geneticamente, sem o receptor canabinoide CB1, apresentam precocemente os prejuízos cognitivos associados à velhice.

Processos inflamatórios do envelhecimento normal, e também observados nas doenças neurodegenerativas, são bloqueados por essas substâncias. Canabinoides facilitam a remoção de placas beta-amiloides, características da doença de Alzheimer, quando depositadas sobre neurônios em laboratório.

O sistema endocanabinoide é um grande regulador da homeostase (a condição de relativa estabilidade do organismo). Sua decadência explica muitos dos problemas do envelhecimento, incluindo alguns tipos de câncer, obesidade e demência.

Restaurar o funcionamento do sistema endocanabinoide pode ser estratégico para reverter perdas cognitivas e devolver saúde àqueles que vivem mais.

Trinta anos antes da descoberta da anandamida e do 2-AG, Raphael Mechoulam isolou uma substância exógena capaz de ativar o sistema endocanabinoide.

O delta-9-tetra-hidrocanabinol (THC) é uma molécula psicoativa presente nas plantas do gênero cannabis.

Hoje sabemos da existência de centenas de fitocanabinoides (do grego “vegetal”) e dezenas de receptores envolvidos na sua resposta biológica, razão das pesquisas sobre o papel terapêutico da maconha.

Em 2016, o time de Staci Gruber e Scott Lukas, nos Estados Unidos, acompanhou o impacto do consumo de cannabis medicinal sobre o aprendizado de adultos entre 32 e 74 anos de idade. Após 3 meses, os indivíduos tratados apresentaram maior velocidade na conclusão de tarefas sem perda de precisão quando comparados a controles da mesma idade e não tratados.

Os pacientes relataram também melhorias no estado clínico, redução do distúrbio do sono, diminuição dos sintomas de depressão e no consumo de remédios como opioides.

Em 2017, Andreas Zimmer e colegas na Alemanha demonstraram que doses moderadas de THC revertem o declínio cognitivo em camundongos adultos e idosos. O efeito comportamental foi acompanhado pelo fortalecimento da comunicação entre os neurônios e aumento da densidade do hipocampo, que passou a ter um perfil semelhante ao de animais jovens.

A equipe alemã avalia agora o efeito do THC em 100 voluntários humanos, com idades entre 60 e 70 anos. Esse tipo de estudo torna-se cada vez mais relevante, visto que o consumo de maconha aumentou 400% entre os sexagenários norte-americanos (não há levantamentos disponíveis para outros países).

Cabe mencionar que, na pesquisa da universidade de Bonn, roedores jovens expostos ao THC apresentaram performance cognitiva inferior ao observado nos animais da mesma idade que não receberam o fitocanabinoide. O resultado ratifica a necessidade de regulamentação da cannabis. Assim como o álcool, a maconha não é para adolescentes, jovens ou indivíduos com transtornos mentais. No futuro próximo, senhoras e senhores de meia-idade em diante lembrarão envergonhados de um dos maiores fiascos da breve história do homem na Terra: a guerra às drogas, especialmente à maconha.

Tais lembranças surgirão enquanto consomem cannabis e derivados prescritos por seus próprios geriatras, com o objetivo profilático de evitar perdas cognitivas e demências como Alzheimer.

Se depender da ciência, tudo indica que é isso mesmo que vai acontecer.

Stevens Rehen

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