Canga estampada esticada na grama sob a sombra de uma palmeira com vista para o mar. Em uma das mãos um refrigerante, na outra o cigarro de maconha.

O vendedor José Luis López, 48, pita seu baseado como se não houvesse amanhã e não fosse de manhã em um dos locais mais movimentados e turísticos de Punta del Este, a “rambla” do porto.

Algumas pessoas passam por ele no calçadão do famoso balneário uruguaio -que fica a 130 km da capital, Montevidéu- e, ao sentir a maresia, viram-se para checar quem está fumando.

López não disfarça, não esconde o cigarro com as mãos. Afinal, não está fazendo nada de ilegal, já que o consumo da droga é permitido no Uruguai.

O que mudará no país daqui a três meses é que a produção e a venda da maconha também serão legalizadas.

Uruguaios e residentes no país maiores de 18 anos poderão se cadastrar para adquirir até 40 g mensais da erva em farmácias, conforme a lei aprovada em dezembro e que passará a vigorar em abril. O cultivo de até seis plantas por residência também será liberado.

“Temos que aproveitar as poucas liberdades que o Estado nos dá”, afirma López à Folha, enquanto apaga seu baseado, às 12h30 da última quinta-feira. “A lei é boa, mas o governo tinha que se preocupar com questões muito mais importantes, como o desemprego.”

Por causa da nova lei da maconha, neste verão fala-se muito mais abertamente sobre a droga em Punta. E algumas pessoas, como López, acendem seus cigarros com mais naturalidade, sem se importar tanto com quem está ao lado.

No restaurante La Huella, na praia mais chique de Punta, José Ignacio, um fato inédito aconteceu neste verão, segundo o proprietário, Martín Pittaluga: um cliente acendeu um cigarro de maconha no meio da varanda do local, muito frequentado por celebridades brasileiras, argentinas e uruguaias.

A vendedora de chapéus Cecilia Bonilla, 31, que há seis verões bate ponto em José Ignacio, conta que todos os dias um turista lhe pergunta onde conseguir maconha, o que não acontecia antes.

“As pessoas perderam a vergonha de perguntar. E te digo uma coisa: todos têm mais de 40 anos. Antes era só a garotada que queria saber”, diz. Entre os perguntadores mais assíduos, segundo ela, estão os argentinos. “Mas também tem americano, francês e brasileiro.”

A empresária argentina L.B., 37, que pediu para não ser identificada, frequenta José Ignacio há alguns anos e não nota um aumento do consumo da droga após a nova lei ter sido aprovada.

“Adoraria ver mais gente fumando, assim eu já pediria para fumar também. Mas eu e meus amigos só fazemos isso em festas dentro de casa”, diz ela, taça de vinho branco na mão e chapéu de caubói na cabeça.

Nas praias Montoya e Bikini, duas das preferidas dos jovens, o consumo de maconha continua igual ao de outros verões, segundo alguns frequentadores.

“Não aumentou por causa da lei. Continua a mesma coisa, alguns grupinhos que fumam à noite, nas pontas da praia ou nas baladas”, diz Dayanna Rabuñal, 29, moradora de Montevidéu que vai sempre a Montoya no verão.

FARMÁCIAS

A Folha visitou cinco farmácias em praias e no centro de Punta del Este. Em todas, os vendedores relatam atender todos os dias algum turista perguntando se já se pode comprar maconha.

“E sempre são homens, alguns com mais de 60 anos”, entrega Isabel Soria, que trabalha há 22 anos na farmácia Campus. “E eu repito sempre a mesma coisa: turista não vai poder comprar, e a lei ainda não está em vigor.”

Por Lígia Mesquita
Via Folha de S.Paulo