O que é esquizofrenia?

O Royal College of Psychiatrists [Colégio Real de Psiquiatras] definem a esquizofrenia como “um transtorno mental que afeta o pensamento, sentimento e comportamento” (RCP, 2008).

No Reino Unido, a esquizofrenia afeta 1 em cada 100 pessoas durante a sua vida, uma estatística impressionante que leva a crer que merece maior atenção. Pensa-se que os fatores genéticos e ambientais podem provocar o aparecimento de esquizofrenia. É considerada como um destes gatilhos a cannabis.

Por que a Cannabis?

A ligação entre a cannabis e a esquizofrenia foi observada pela primeira vez no início de 1970 (Davidson & Wilson, 1972; Bernhardson & Gunne, 1972). Desde então, tem havido bastante interesse nesta área, sobretudo uma decisão política baseada nessa associação que levou ao raciocínio por trás da mudança de classificação da maconha de classe C para B (janeiro de 2009).

A principal substância psicoativa da planta Cannabis Sativa é o delta-9-tetrahidrocanabinol (Δ-9thC) (Rathbone et al., 2008). Embora se reconheça que outros canabinóides, particularmente o canabidiol (CBD), desempenham um papel significativo e oposto ao estado mental provocado pelo THC, é o THC que será focado aqui.

Apesar de existirem muitas causas biológicas propostas por trás dessa associação, ainda não são conhecidos os mecanismos exatos. Alguns destes mecanismos, acredita-se, são devidos a um aumento do nível de agonista canabinóide endógeno, anandamida, que foi visto no fluido cerebrospinal (fluido no interior do cérebro) de pessoas com esquizofrenia (Hall e Degenhardt, 2008). Também se acredita que os sistemas de dopamina (Murray et al., 2007) e acetilcolina (Domino, 1981), desempenham um papel.

A questão aqui, no entanto, é se fumar maconha causa esquizofrenia ou se é um componente de muitos. É essa correlação uma causa ou um efeito?

Cinco Teorias

Foi estabelecido que existem 5 hipóteses subjacentes a esta relação entre o ato de fumar maconha e o desenvolvimento da esquizofrenia (Smit et al., 2004.):

1. “hipótese da automedicação”: pessoas que sofrem de sintomas esquizofrênicos usam cannabis, a fim de lidar com os sintomas negativos.

2. “hipótese dos efeitos de outras drogas”: a maioria das pessoas que usam cannabis também tomam outras drogas como anfetaminas, opiáceos e cocaína, e estas podem estar provocando o desenvolvimento da esquizofrenia.

3. “hipótese da confusão”: a associação entre o uso de cannabis e a esquizofrenia é causada por mais de um fator, assim a sua relação é espúria.

4. “hipótese da interação”: apenas as pessoas que já estão em alto risco de desenvolver esquizofrenia são capazes de desenvolvê-la. Este risco pode ser por causa genética e desencadeado por coisas como a cannabis.

5. “hipótese etiológica”: diz que a maconha faz a sua própria contribuição para o risco de se tornar esquizofrênico.

O Estudo Sueco

Um dos primeiros e maiores estudos longitudinais (abrangendo mais de 15 anos) sobre os efeitos da cannabis e o desenvolvimento da esquizofrenia foi o estudo sueco que descobriu que da coorte de 45.570 homens (que foram recrutados no exército), os usuários de maconha muito frequentes (que usaram em mais de 50 ocasiões) tinham 6 vezes mais risco para a esquizofrenia do que os não-usuários.

Eles também descobriram que aqueles que só tinham usado maconha pelo menos uma vez tiveram um risco 2,4 vezes maior que os não-usuários (Andreasson et al., 1987). Apesar de ter sido visto que os recrutas que pareciam não ter sintomas psiquiátricos não terem um risco aumentado de esquizofrenia, não foi possível determinar se esses fatos eram causais ou não.

Este grupo foi revisitado mais recentemente em 2012, onde encontraram um risco três vezes maior para a esquizofrenia em pessoas que estavam usando maconha com mais frequência. Eles concluíram que este estudo reforçou as conclusões sobre a associação entre o uso de cannabis e transtornos psicóticos. No entanto, não está claro se o uso de cannabis dos participantes era antes do estudo, se os participantes estavam sob ou sobre-relatando seu uso de maconha, e se havia alguma associação com experiências traumáticas, quer durante o seu tempo no serviço militar obrigatório ou não. Seus resultados também não são aplicáveis às formas mais leves de esquizofrenia, ou seja, formas que não necessitam de cuidados hospitalares (Manrique-Garcia et al., 2012).

Ligação Genética

Já foram feitos estudos que mostram a relação entre os efeitos do uso da maconha em pessoas que são geneticamente suscetíveis a um maior risco de desenvolver esquizofrenia. Demonstrou-se que 92% dos usuários de cannabis não desenvolve esquizofrenia (Arseneault et al., 2004; Caspi et al., 2005) e estes restantes 8% só podem ser explicados pela presença de determinados genes.

Um interessante estudo mostrou ainda que portadores de um gene mutado (COMT – uma enzima que está envolvida na quebra de dopamina e noradrenalina, entre outros) são mais propensos à psicose, não havendo um “principal-efeito risco” para os portadores e não sendo mais propensos a usar cannabis (Caspi et al., 2005). Isso fornece evidências para a hipótese da interação, visto que pessoas que são geneticamente suscetíveis a um maior risco de esquizofrenia têm uma vulnerabilidade para problemas de saúde mental associados com o consumo de cannabis (Hollis et al., 2008).

Apesar disso, há estudos que contrariam esta ligação por concluírem que não há evidências de correlação genético-ambiental. Cannabis e psicose podem ser direcionais, porém não existe apenas um fator causal no desenvolvimento da esquizofrenia, mas diversos como a automedicação para a aflição ou sinais de alerta precoce de outros problemas de saúde mental. Pode ser devido a interações entre fatores genéticos e maconha em vez de serem as interações entre o uso de cannabis e uma predisposição à esquizofrenia (Veling et al., 2008).

Deve também ser levado em conta que estes estudos genéticos são predominantemente focados em adolescentes e que seus cérebros são considerados como os mais vulneráveis à alteração. Esses estudos não fornecem qualquer evidência para o uso de cannabis na idade adulta e geralmente consideram que o uso de cannabis após a adolescência não aumenta o risco para o desenvolvimento da esquizofrenia, independentemente de interações entre genes ou do ambiente.

Alterações Físicas Cerebrais

Imagens do cérebro mais recentes e os estudos neurocientíficos têm demonstrado que a maconha pode alterar a estrutura do cérebro, particularmente em áreas que são ricas em receptores de canabinóides (CB1) em usuários em comparação aos não-usuários (Bangalore et al., 2008). Em outro estudo, observou-se que os usuários crônicos de maconha apresentam alterações em células nervosas nas áreas do cérebro intimamente associadas com a esquizofrenia (DeLisi, 2008).

Estes estudos geralmente causam maior alarme quando se identificam alterações físicas e geralmente irreversíveis ao cérebro.

No entanto, a associação entre usuários de maconha e as mudanças associadas a estas áreas não foi esclarecida. O primeiro estudo usou uma amostra pequena e a relação entre a estrutura cerebral estimada e as alterações dos receptores CB1 foi vaga. É provável que as pessoas que fumam cannabis e desenvolvem episódios psicóticos têm baixa atividade no gene que codifica a dopamina (a desregulação desse é o fator-chave na esquizofrenia), o que potencializa os efeitos da maconha e é capaz de provocar reações psicóticas agudas.

Psicose da Cannabis

Recentemente, há um número crescente de cientistas que acreditam na existência de uma psicose específica da cannabis. Os pacientes com psicose da cannabis são vistos a exibir comportamento bizarro mais estranho. Eles também foram vistos como tendo transtorno de pensamento menos formal e uma visão melhorada em comparação com aqueles com esquizofrenia (Hall & Degenhardt, 2004). No entanto, outro estudo encontrou poucas diferenças na etiologia entre os esquizofrênicos que eram usuários de maconha e os não-usuários e se opõe ao argumento de que ocorra uma psicose distinta da esquizofrenia causada pela cannabis (Boydell et al., 2007).

Contradizendo Estudos sobre Automedicação

O Estudo Holandês
Um estudo holandês foi realizado com 4.045 pessoas que não tinham histórico de sintomas psicóticos (Van Os, 2002). Este estudo demonstrou que o risco para os usuários e não-usuários de maconha sem histórico de psicose é de 2,2%, enquanto o risco para aqueles com algum histórico é de 54,7% (Van Os, 2002). O estudo implicou que o início tardio de sintomas esquizofrênicos foi precedido por uso de maconha antes. No entanto, esta constatação não confirma que as pessoas não usam a Cannabis para automedicação, visto que os acompanhamentos não eram consistentes.

O Estudo da Nova Zelândia
Um estudo longitudinal realizado na Nova Zelândia examinou o estado de saúde mental de 1.037 indivíduos e concluiu que o risco de desenvolver esquizofrenia era específico para a cannabis, e não para o uso de outros fármacos (Arseneault et al. 2002). Os sintomas de psicose anteriores ao uso de cannabis foram controlados neste estudo, foi demonstrado que o uso de cannabis não é secundário aos sintomas já existentes. Este estudo demonstra que a hipótese de automedicação não é uma explicação válida para a relação entre o consumo de cannabis e o desenvolvimento da esquizofrenia, uma vez que foi mostrado que o consumo de cannabis precedia os sintomas de psicose.

Por outro lado, observou-se que indivíduos que apresentam o mínimo de ‘ansiedade social ou as expressões mais suaves de experiências psicóticas semelhantes, podem ser mais propensos a começar a usar a cannabis, de modo a automedicar seu sofrimento.’ Portanto, pode ser que a existência de experiências psicóticas sutis, em vez de os sintomas clínicos proeminentes, é suficiente para provocar o desenvolvimento da esquizofrenia com a utilização de disparadores tais como o fumo de cannabis (Henquet et al., 2005).

Estudo com Pessoas Jovens
Outro estudo constatou que os jovens que preenchiam os critérios do DSM-IV para dependência de cannabis tinham o dobro da taxa de sintomas psicóticos do que aqueles que não eram dependentes de maconha (Fergusson et al., 2003). Isso ocorreu apesar de fatores como sintomas psicóticos pré-existentes, uso de outras drogas (etc.).

Segundo este estudo, os sintomas esquizofrênicos desenvolvem-se nos jovens, independentemente de sintomas pré-existentes e outros fatores sociais e contextuais, ocorrendo somente em pessoas que têm dependência de cannabis.

No entanto, embora o estudo afirme que a dependência de cannabis preceda os sintomas esquizofrênicos, na realidade é incerto se o estudo atingiu isso. Os dados foram recolhidos em vários pontos no desenvolvimento de cada tema. Apesar do fato de que a análise mostrou uma relação causal, a direção da causalidade ainda permanece obscura. Esta crítica aplica-se a muitos outros estudos longitudinais que utilizam análise metodológica similar.

A possibilidade de que a hipótese da automedicação é uma explicação entre a associação de cannabis e o desenvolvimento da esquizofrenia está ainda aberta a debate.

Além disso, a associação exata entre as medidas de sintomas psicóticos e psicose em níveis clínicos ainda é incerta.

Observações Finais

Simplificando, usuários de maconha são mais propensos a apresentar sintomas psicóticos do que os não-usuários. Isto sugere a existência de um continuum entre o aumento do uso de cannabis em indivíduos com propensão a psicose e entre o uso de cannabis e a propensão a psicose em indivíduos sem psicose clínica.

A cannabis parece ser um fator de risco independente para a psicose, especialmente em pessoas com uma vulnerabilidade pré-existente para esta doença (Verdoux, 2004). Isto é ainda apoiado pela evidência de que a cannabis é considerada uma causa componente da esquizofrenia, sendo parte de uma constelação mais ampla e mais complexa de outros componentes (Arseneault et al., 2004).

Estes pontos apoiam a maioria dos estudos que estão disponíveis, a maioria dos mais significativos foi descrita aqui. Apesar dessa adoção cada vez maior das associações observadas entre fumar maconha e o desenvolvimento de esquizofrenia, existem algumas grandes preocupações. O principal problema com estes estudos é que todos eles examinam esta relação de forma diferente.

Muitos estudos contradizem bastante uns aos outros. O problema é que a esquizofrenia é extremamente difícil de diagnosticar e fumar maconha não toca apenas uma parte, visto que as implicações disso são complexas. Pode-se dizer com certeza que esta relação não é espúria, mas cannabis não é o único fator causal, é um de muitos.

A citação abaixo do Conselho Consultivo para o Abuso de Drogas, apesar de um pouco desatualizada, ainda é muito relevante:

“Embora haja uma coerente (embora fraca) associação, a partir de estudos longitudinais, entre o uso de cannabis e o desenvolvimento de doenças psicóticas, isso não é refletido nas evidências disponíveis sobre a incidência de doenças psicóticas. A explicação mais provável (mas não a única) é que a cannabis – na população como um todo – desempenha apenas um papel modesto no desenvolvimento destas condições.”

Tradução SmokeBud
Via Release [Citações de artigos e livros base da pesquisa no link da fonte]