A ‘re’-descoberta do uso medicinal da maconha pelos brasileiros, celebridades colocando a cara, pacientes e usuários recreativos gritando pela regulação da erva em diversas marchas, e injustas prisões devido a discriminação racial (o preto é traficante e o branco usuário): estes foram alguns motivos que levaram a jornalista Laura Capriglione¹ a uma analise do cenário e, por fim,  a questionar quando será a hora do Brasil regular. O artigo foi publicado originalmente no Yahoo!.

De novo, maconheiros, simpatizantes e afins vão se reunir para mais uma Marcha da Maconha. Em São Paulo, a turma planeja se encontrar no sábado, 26 de abril, no vão livre do Masp, às 14h.

Na última quinta-feira, o maior ídolo do funk ostentação, MC Guimê (“Plaquê de 100”, vídeo no Youtube com 46 milhões de visualizações) revelou pela TV que consome seus baseados. Todo dia. E que acha preferível o consumo de maconha ao de álcool. “Fico muito mais louco com álcool do que com a maconha”, disse.

Também pela TV, a família da menina Anny Bortoli Fischer, de cinco anos, que sofre com a síndrome CDKL5, problema genético causador de um tipo raro e incurável de epilepsia, confessou que “trafica” dos Estados Unidos a droga CDB, derivada da maconha. Serve para reduzir as convulsões em série e melhorar a qualidade de vida da garotinha. No Brasil, é proibido o uso de quaisquer substâncias extraídas da cannabis (o nome científico do velho “fuminho”).

Ah, e tem o Uruguai e mais 20 Estados Americanos que regulamentaram o uso da maconha, sem que isso tenha significado a implantação do reinado do Mal sobre a terra.

Mas a maconha não é a porta de entrada para outras drogas? A maconha não causa a degeneração cerebral? Não desencadeia surtos psicóticos? Meu Deus! Onde isso vai parar?

Curiosamente, foi o uso medicinal da maconha, acreditam observadores da cena mundial, que conseguiu mitigar boa parte do preconceito que cerca a erva. Usada desde o início dos anos 1970 –com comprovação científica, diga-se– para combater os efeitos do glaucoma, para aliviar os efeitos nauseantes da quimioterapia em pacientes de câncer, para melhorar os sintomas dolorosos da artrite reumatoide, como coadjuvante no tratamento da esclerose múltipla, ou para abrir o apetite, entre outras indicações, a maconha foi pouco a pouco domando a desinformação.

Pois se a senhora de 65 anos, Maria Antonia Goulart, paulistana, casada, tão séria e compenetrada, que testemunha sobre os efeitos benéficos da maconha para combater as dores lancinantes do câncer de intestino, não parece ter mergulhado no crack e certamente não teve seu cérebro devastado pela cannabis, deve haver alguma coisa errada nas “informações” sobre os tais efeitos “devastadores” daquela que já foi chamada de “erva maldita”.

Extensamente multiplicados nos Estados Unidos, casos como os de Maria Antônia conseguiram retirar a maconha da vala de marginalidade e insanidade em que a abordagem policialesca sempre lançou os usuários de drogas ilegais. E mostrou que a maconha, em princípio, não é contraditória com uma vida comum e produtiva. Ou, não mais do que o álcool ou o Dormonid e o Lexotan.

O trágico é saber que a inércia no enfrentamento aberto do preconceito e da desinformação tem consequências tão graves. No Brasil, milhares de garotos estão presos nos infernos (aí sim a definição é precisa) das cadeias por terem sido pegos com pequenas quantidades de maconha. A média dos flagrantes feitos pela polícia, segundo o Núcleo de Estudos da Violência da USP, foi de 66,5 gramas de droga.

Já seria grave. Mas sabe-se que as circunstâncias das prisões são uma excelente oportunidade para os maus bofes racistas se manifestarem. Assim, se em duas ocorrências semelhantes prendem-se dois garotos com pequenas e idênticas quantidades de droga, quem será enquadrado como traficante será o negro, pobre, sem advogado. O branco, universitário, com advogado figurará como usuário e não será submetido à prisão.

Os Estados Unidos já perceberam que a política de encarceramento em massa é burra, multiplica a força de recrutamento do crime (porque gera uma grande massa de jovens com o estigma de “ex-presidiário”, com menos chance de emprego), é cara e, pior, é incapaz de reduzir o tráfico e o consumo de drogas, que só cresce. Para isso, em vez da proscrição pura e simples, vem regulamentando o uso da maconha. Quando chegará a nossa hora?

¹Laura Capriglione, 54, é jornalista. Nasceu em São Paulo e cursou Física e Ciências Sociais na USP. Trabalhou como repórter especial do jornal “Folha de S.Paulo” entre 2004 e 2013. Dirigiu o Notícias Populares (SP), foi diretora de novos projetos na Editora Abril e trabalhou na revista “Veja”. Conquistou o Prêmio Esso de Reportagem 1994, com a matéria “Mulher, a grande mudança no Brasil”, em parceria com Dorrit Harazim e Laura Greenhalgh. Foi editora-executiva da revista até 2000.