Bancos já podem operar com o setor, mas estão cautelosos pois teriam que praticamente fiscalizar as companhias. As informações são do Valor Econômico.

No primeiro dia de 2014, a venda de maconha para consumo recreativo passou a ser legal no Colorado (EUA). Foi um dia de filas para comprar a erva em pontos agora autorizados e de alguns excessos, com registros de supostas superdosagens em hospitais. Mas a euforia daqueles que consomem a planta foi quase nada se comparada àquela do mercado financeiro. Na reta final de 2013, empresas que já tinham negócios relacionados com a maconha, em especial para uso medicinal, ou apenas agregaram o nome da erva a seu nome, mostraram desenfreada valorização de suas ações no mercado de balcão – um segmento do mercado de capitais onde são negociados papéis, fora da bolsa de valores. Em alguns casos, a alta superou 1.500%, em um par de pregões.

Hoje, dos 50 Estados americanos, 20 liberam a maconha para fins medicinais; sendo que dois também para fins recreativos. Além do Colorado, Washington deve iniciar vendas nos próximos meses. A expectativa é que os outros Estados liberem o consumo, medicinal e recreativo, no curto prazo, criando uma nova indústria formal e que poderá rivalizar com o álcool e o tabaco.

“A opinião pública americana sobre o assunto mudou mais rápido até do que se podia esperar”, diz Christian Groh, sócio fundador da Privateer Holdings, uma espécie de private equity destinado a investir na indústria da maconha.

O analista Osman Ghani, em texto publicado no “OTCBB Journal”, publicação especializada em pequenas e médias empresas, diz que a venda de maconha e de produtos relacionados a ela se transformará no maior mercado consumidor da história recente americana. A nova indústria teria potencial para movimentar US$ 120 bilhões, diz ele. O mercado de álcool é avaliado em US$ 263 bilhões; o de tabaco, US$ 75 bilhões.

A procura intensa por ações de empresas ligadas à maconha nos últimos meses levou a entidade autorreguladora do mercado financeiro dos Estados Unidos, a Finra, a disparar um alerta. A Finra chamou a atenção para as possibilidades de fraudes, além dos riscos de investir em papéis que são negociados no balcão, menos regulado e que reúne empresas de pouca ou nenhuma liquidez, geralmente cotadas a centavos, favorecendo altas frenéticas e especulação.

A razão para essas empresas não estarem na Nyse ou na Nasdaq é o fato de, apesar de alguns Estados já liberarem a maconha, em sua maioria para fins medicinais, a erva é proibida no país por uma lei federal. As bolsas não aceitam empresas que contrariem a lei máxima. Pelo mesmo motivo, nenhuma dessas companhias pode ter relacionamento com os grandes bancos americanos. Isso equivale dizer que elas fazem negócios em dinheiro vivo – não têm conta para depósitos, não acessam financiamentos e também não possuem cartões de crédito.

Grandes quantidades de dinheiro circulando sem ter um lugar apropriado para ficar preocupam as autoridades americanas. O governo anunciou, recentemente, algumas regras que permitem que bancos fechem negócios com as empresas do segmento. Para tanto, eles terão praticamente que fiscalizar essas companhias.

Deverão se certificar que elas obedecem os regulamentos do estado em que atuam e que não violam alguns princípios já definidos: elas não podem vender maconha para menores de idade, não podem destinar recursos para organizações criminosas, ou traficar a erva para estados em que ela ainda é ilegal.

O banco terá de apresentar relatórios regulares detalhando todas as transações feitas pela empresa e, se desconfiar que ela está quebrando as regras, deverá comunicar as autoridades federais e pedir uma investigação.

Especialistas americanos dizem que, nessas condições, são remotas as possibilidades de grandes bancos financiarem esse setor. A grande preocupação dessas instituições é contrariar uma lei federal e elas também temem que trabalhar com essas empresas possa significar atrair atenção extra e talvez indesejada dos reguladores para seus negócios, em especial investigações sobre lavagem de dinheiro.

Alan Brochstein, analista independente, calculou que a capitalização de mercado de 35 empresas no balcão chegou ao pico recente de US$ 5,5 bilhões – o valor inclui papéis conversíveis, como ações preferenciais e notas. Algumas dessas empresas são apenas projetos; outras existem há pouco mais de um ano e algumas apenas mudaram recentemente a razão social para incluir a maconha em seus nomes ou planos de negócios.

Brochstein lançou um site para atrair aqueles que já apostam na maconha como tese de investimento e oferece relatórios de análise sobre as companhias. Ele afirma que as “coisas ficarão mais fáceis” para essas empresas quando houver harmonia entre as leis estaduais e federal.

“Nesse momento, os bancos que trabalham em Wall Street acreditam que seria arriscado demais fazer uma oferta pública de ações dessas empresas “, diz. Na visão dele, esse setor é extremamente fragmentado e deverá mudar muito nos próximos anos, depois que todos os estados liberarem a erva, derrubando a lei federal, o que acredita que pode acontecer lá em 2020. Para ele, a indústria da maconha é “o mais poderoso potencial tema de investimento que eu já vi em toda a minha carreira”.

Depois do rally de início de ano, os analistas americanos já apontam uma bolha. No início de janeiro, cinco companhias lideraram a seção de número de negócios de balcão americano: Growlife, Cannabis Science, GreenGo Technologies, Medical Marijuana e Hemp – até então representavam pequenas frações do que se negociava no balcão. Brochstein calcula um índice que reúne 20 empresas que se dizem relacionadas à maconha: em janeiro ele subiu 328% e, em fevereiro, 18%.

Entre companhias negociadas no mercado de balcão americano que de alguma forma têm negócios relacionados com a maconha, estão desde empresas que produzem equipamentos agrícolas e vaporizadores, até as que desejam vender gomas de mascar.

Em seu alerta a investidores, a autorreguladora americana Finra pediu cuidado com algum oportunismo por parte das empresas e de administradores ou corretores mal intencionados. O mercado de balcão americano que abriga ações cotadas a centavos favorece especulações e até mesmo fraudes – foi nesse segmento que operou Jordan Belfort, cuja vida foi retratada em livro e no filme “O Lobo de Wall Street”.

A principal empresa que opera esse segmento, a OTC Markets, tem três níveis de negociação. Em cada um deles a exigência de divulgação de informações das companhias vai diminuindo, até chegar no segmento chamado “Pink”, que abriga aquelas que não têm compromisso nenhum com “disclosure” e ações negociadas a centavos – é nesse tipo de segmento que a maioria das empresas da maconha estão. A própria OTC adverte que nesse segmento os investidores precisam ter muita cautela e fazer muita pesquisa antes de investir.

Nesses meses de euforia, a Finra identificou empresas no setor promovendo seus negócios através de emails com textos agressivamente otimistas, com o objetivo de criar uma alta demanda pelos papéis. Quando eles sobem, as mesmas pessoas que dispararam os emails iniciam as vendas, para realizar lucros, alertou a entidade, deixando os pequenos investidores com um problema em mãos. Uma das companhias, por exemplo, anunciou sua entrada no segmento de negócios relacionados à maconha soltando mais de 30 comunicados à imprensa na primeira metade de 2013. Uma de suas peças de divulgação dizia que suas ações poderiam dobrar de preço logo e pintavam um cenário muito promissor. No entanto, o balanço da empresa mostra que ela apresenta apenas prejuízos e apenas agora começa a formular um plano de negócios. Os prejuízos são, inclusive, características de quase todas no setor.

Sem citar os nomes das companhias, a Finra afirmou que o principal executivo de uma delas passou nove anos na cadeia por operar uma das maiores operações de contrabando de drogas da história dos Estados Unidos.

O fato é que mesmo as melhores ações do segmento embutem grandes riscos para o investimento. Como parte de uma indústria muito nova, as empresas são imaturas, apontam analistas. São negociadas abaixo de US 1 e tem menos de 18 meses de vida. Mas possivelmente algumas dessas se mostrarão no futuro boas teses de investimento.