Um estudo publicado recentemente,  no “Journal of Neuroscience”, duvidosamente cortou o barato da galera ao informar que o uso recreativo da erva poderia causar alterações cerebrais, mas como felicidade de proibicionista dura pouco, uma jornalista especializada em neurociências desbanca o artigo. As informações são do The Daily Best, por Maia Szalavitz, com tradução do Visão Ampla.

O uso recreativo de maconha pode danificar o cérebro dos jovens adultos?
Um novo estudo diz que sim, mas seus participantes sugerem o contrário.

Por toda a Internet, as manchetes estão vociferando que maconha prejudica os cérebros. Mas o novo estudo, publicado no Journal of Neuroscience, não prova que o uso ocasional de maconha é ruim para o cérebro.

Para entender por que, tudo o que você precisa fazer é realmente ler a pesquisa e ser capaz de pensar criticamente. Você não precisa saber nada especial sobre fMRI ou quaisquer outras siglas assustadoras, e você não precisa ser um conhecedor das estruturas cerebrais. Você nem precisa entender todas as estatísticas.

Aqui está o primeiro grande problema. Os 20 usuários de maconha participantes, que usaram a droga pelo menos uma vez por semana, foram propositalmente escolhidos por ser saudáveis. Os que apresentaram algum problema relacionado à maconha ou problemas psiquiátricos ou outras questões foram excluídos do estudo.

Você está começando a ver o que está errado? Embora os participantes usuários de maconha tenham mostrado diferenças cerebrais, em comparação com os controles, não usuários, ambos os grupos apresentaram-se normais! Em primeiro lugar, se usuários apresentaram quaisquer problemas relacionados à maconha ou qualquer outro tipo de deficiência, eles não foram incluídos na pesquisa. Portanto, o cérebro diferente que os pesquisadores descobriram foi, por definição, não associado a problemas cognitivos, emocionais, mentais ou outros problemas.

“Estou desapontado que os cientistas ainda são capazes de publicar artigos de alto nível que só olham para neuroimagem, sem uma discussão sobre o comportamento”, diz Carl Hart, professor associado de psicologia na Universidade de Columbia, que não participou da pesquisa. Hart lembra sobre as diferenças cerebrais naturalmente encontradas entre os sexos. “Há diferenças estruturais entre homens e mulheres em determinadas áreas”, diz ele, mas elas não preveem diferenças na capacidade. “Nós não dizemos que isso significa que as mulheres são prejudicadas”, acrescenta.

Os autores afirmam que as diferenças que eles viram poderiam significar que estes participantes estão em risco de futuros problemas, mas sabemos que 35 por cento dos jovens adultos entre 18 e 20 anos fumaram maconha no ano passado, com um total de 1 em cada 5 tendo fumado pelo menos uma vez no mês passado.

Uma vez que eles atinjam 26 anos de idade, no entanto, menos de 1 por cento têm problemas sérios com a maconha, suficientes para serem classificados como dependência. O que isto significa é que as mudanças cerebrais, seja qual forem, são vistas em usuários casuais, mas elas não significam dependência, caso contrário, todos os usuários casuais se tornariam viciados, ou pelo menos, uma proporção muito maior do que realmente acontece. Nós já tivemos várias gerações de adultos norte-americanos que sobreviveram a taxas muito mais altas de uso de maconha do que vemos agora sem encontrar uma grande epidemia de comprometimento cognitivo, esquizofrenia ou falta de motivação.

Infelizmente, este não é o único problema do estudo. “Somente o uso casual parece criar mudanças no cérebro em áreas que você não gostaria de ver alteração”, disse o autor, Hans Breiter, professor de psiquiatria da Northwestern Feinberg School of Medicine. Mas note que Breiter diz “parece criar,” em vez de “cria”. Isso porque este tipo de estudo não pode determinar causa e efeito: ao mesmo tempo que mostrou que os usuários mais pesados pareciam apresentar mudanças mais extremas do que o usuários mais leves, isso não prova que doses mais elevadas causam maiores alterações cerebrais. Isso porque as diferenças pré-existentes no cérebro das pessoas pode levá-los a usar mais ou menos a maconha e os exames podem estar simplesmente detectando essas diferenças.

Será que isso implica que a maconha é completamente benigna e todos devem fumar o dia todo, todos os dias? Claro que não! Mas o que isso significa é que, à medida que consideramos mudanças políticas como a legalização, precisamos de uma imprensa muito mais cética e inteligente. A maconha em si pode ou não prejudicar a cognição, mas discussões superficiais sobre políticas de maconha, claramente, prejudicam a cognição, de uma forma que é prejudicial para a nossa saúde política.

  • Habner Gomes

    Cara, amo esse site.

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