Autor do livro que conta a história da maconha no brasil, mostrando as metamorfoses do estigma sobre a erva durante cinco séculos, em entrevista à Folha, ressalta ainda que a maconha sempre esteve muito mais ligada à cultura brasileira do que à americana ou à europeia e lembra que o país teve um papel importante na sua proibição global.

O historiador Jean Marcel Carvalho França, da Unesp em Franca, conta em “História da Maconha no Brasil” como a maconha no decorrer das décadas passou de subversiva, símbolo da contracultura chegando ao atual status Business.

Inicialmente, a maconha era coisa dos negros e levava ao marasmo. A partir dos anos 1960, uma reviravolta: a droga se torna subversiva, símbolo da contracultura. Hoje, passa a ser vista de um pragmático ponto de vista: um mercado bilionário

O historiador Jean Marcel Carvalho França, da Unesp em Franca, conta em “História da Maconha no Brasil“, lançado agora pelo selo Três Estrelas, do Grupo Folha, como se deu essa transição.

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O professor de históra Jean Marcel Caravalho de França, em sua casa, no interior de São Paulo – Foto Pierre Duarte / FolhaPress

Em entrevista à Folha, ele ressalta que a maconha sempre esteve muito mais ligada à cultura brasileira do que à americana ou à europeia e lembra que o país teve um papel importante na sua proibição global.

O livro é fascinante porque mostra como o discurso que justificou a estigmatização da planta foi se metamorfoseando ao sabor do medo do momento. – Denis Russo Burgierman

Folha ­- Quem trouxe a maconha até o Brasil?

Jean Marcel Carvalho França ­- O mais provável é que tenham sido os negros. Nós optamos pela prática subsaariana, que é fumar. No início, inclusive em cachimbos.

Pode ser que os marinheiros portugueses também tenham trazido. Eles eram todos consumidores de haxixe porque tinham sido iniciados na Índia. Eles tinham isso como um facilitador de viagem; fumavam haxixe para ter uma certa paz no oceano.

Hoje, isso pouco importa, porque o que se consolidou na nossa cultura é que os negros trouxeram a maconha.

Como foi isso nos Estados Unidos e em outros países?

Nós temos aquela paranoia contra os americanos, achamos que tudo de ruim e de repressivo foram eles que inventaram. Nesse caso, não foi.

A questão foi levantada primeiro numa comissão da ONU para o ópio, e quem menciona a maconha não são os EUA, mas os egípcios.

Eles dizem: “Não temos problema com ópio. Temos é uma epidemia de canabismo”. E o representante brasileiro embarca e diz: “Nós também”. Em 1934, então, a ONU resolve incluir a maconha na lista de drogas.

Maconha nunca foi hábito na Europa. Mesmo no clube dos haxixeiros de Paris –Baudelaire e aquela gente toda–, era secundária. Balzac achava chatíssimo fumar aquilo.

A tradição maior de consumo de cannabis é nossa, mas a gente perdeu essa ideia.

Quando surgiu esse debate?

Na década de 1910, o Brasil é pioneiro. Os primeiros artigos partem de observações empíricas: “Eu tenho um ex­escravo que consome maconha e tem tal comportamento”.

Eles não são capazes de dizer que a maconha torna o sujeito propenso à violência, mas apontam que fica avesso ao trabalho, não se interessa por práticas produtivas.

Esse argumento foi construído nas cinco primeiras décadas do século 20. Foi muito bemsucedido. Pense no que ficou no imaginário de nossas mães (minha mãe é de 1928). O maconheiro, para essa geração, é preguiçoso, marginal.

A geração nascida na ditadura não vê assim. É algo mais associado a hippies e artistas.

Entre 1910 e 1960, a luta dos higienistas foi vitoriosa. A maconha retornou como contracultura nos anos 1960.

Aí a maconha abria as portas da sensibilidade e era antiburguesa. A esquerda dizia: a maconha é subversiva porque cria mundos novos. A direita dizia que ela criava subversivos. Ambos acreditavam nesse potencial da maconha. É bonitinho, né? Eu sou pós­punk, quando olho para os hippies, acho bonitinho.

Aí surge a guerra contra as drogas, então.

Sim, tanto os líderes da contracultura quanto o FBI associavam a maconha à subversão, é curioso. Mas também já existia o argumento de que a maconha era alienante, na direita e também na esquerda.

Marx não gosta do “lúmpen”. Ele gostava do proletário higienizado –gente limpa que tem família, não vai a puteiro e não anda bêbado. Gente bêbada que frequenta puta é “lúmpen”, se vende por salsicha e cerveja. Essa tradição dentro do marxismo sempre condenou o uso. A droga não é subversiva, é alienante.

A demonização da maconha está se esvaindo?

Você começa a associar a maconha com coisas positivas. Você faz o indivíduo se lembrar dos remédios para crianças que sofrem, calmantes para quem dorme mal.

No Uruguai, profissionais liberais foram à televisão dizer que fumavam. Isso derruba a ideia de “maconheiro”, indivíduo desocupado que fica parado na esquina, tendendo ao pequeno crime.

Aqui tivemos o ex­-presidente Fernando Henrique Cardoso assumindo essa bandeira.

Ele –e já digo, sou fã dele, sou “viúva do FHC” –captou essa tendência. Veja, eu não estou defendendo a maconha como libertária. É “business”. No Colorado, o tamanho da indústria da maconha é gigantesco. Isso vai ser três vezes a indústria do tabaco.

E é um negócio que tem baixo impacto sobre a saúde pública. E tira o custo da guerra contra as drogas, de polícia rondando para pegar menino fumando maconha em esquina. Vivi muito tempo em Portugal. A polícia encontrava gente fumando haxixe, olhava e ia embora.

Muitos policiais já não adotam essa atitude no Brasil?

Sim. Eu tinha um aluno do comando da PM, ele me convidou para dar uma palestra lá. Fiquei impressionado com a quantidade de policiais a favor da legalização das drogas porque aquilo dava um trabalho enorme para eles e era de uma inutilidade imensa.

Você vê perspectiva de a maré virar a favor da descriminalização em uma década?

Até menos, uns cinco anos. O mundo não é um convento; está mais para um prostíbulo. Quando se constatar o tamanho do negócio da maconha, isso vai correr rapidamente.

HISTÓRIA DA MACONHA NO BRASIL
Autor: Jean Marcel Carvalho França
Editora Três Estrelas
Preço R$ 22,40