Um Helicóptero Recheado de Pó, Dinheiro e Sangue

A Coordenação de Produtos Controlados da ANVISA informou, em 28 de novembro de 2013, através do Sistema Eletrônico do Serviço de Informação ao Cidadão, que não há em seus cadastros nem um registro de solicitação de autorização para o cultivo de Cannabis no Brasil, desde 2005.

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Isso significa que nenhuma de nossas universidades – nenhuma faculdade de farmácia, enfermagem, medicina, biologia, agronomia, engenharia florestal, ou química – ou institutos de pesquisa na área de saúde ou desenvolvimento científico e tecnológico do país, até então, se lançou no campo das pesquisas médicas e científicas para a investigação das propriedades medicinais, terapêuticas ou industriais da Cannabis, embora estas já sejam reconhecidas em todo o mundo.

Vivemos uma situação atípica e constrangedora: pretendemos avançar com o tema da regulação da maconha no Brasil, mas não conhecemos nada sobre a maconha in natura no Brasil. Quero dizer, não da forma legal ou regulamentar.

Querer legalizar a maconha neste país, em 2013, é como ser um aluno do ensino fundamental que matou as aulas de adição, subtração, divisão e multiplicação e quer resolver uma equação de terceiro grau no último período de matemática.

E o governo brasileiro, por meio de sua legislação de drogas, é como um professor que deixa o aluno colar para passar de ano, pois obriga os usuários a recorrer a meios não lícitos para poder aceder a erva.

Todos sabem que a qualidade da maconha prensada do mercado nacional está a anos luz de distância da que se usa de forma medicinal em países onde seu uso já está regulado pelo Estado. Que fique bem claro: não é da maconha prensada que estamos falando. O prensado deveria ser uma questão de preocupação da Saúde Pública.

Nos EUA, por exemplo, a faculdade de farmácia da Universidade de Mississípi cultiva Cannabis para o governo americano e para as pesquisas médicas desde 1968, ininterruptamente. O governo brasileiro, neste mesmo ano, se não me falha a memória, assinava o AI-5: algo que nos esforçamos para esquecer.

No auge da ditadura brasileira, portanto, o governo norte-americano plantava as primeiras sementes do que, hoje, o governo de Israel reconhece como a planta que vai salvar o planeta.

Sim, em Israel, a maconha também é medicinal. Tikun Olam é a primeira fazenda legal, seguida por outras seis, que plantam e colhem maconha para o tratamento de inúmeras doenças em jovens, idosos, crianças e nos veteranos de guerra que sofrem de uma condição conhecida por estresse pós-traumático.

Fazenda Tikun Olam Maconha Cannabis Israel
Campo de Cultivo da fazenda Tikun Olam, a primeira fazenda de cultivo legal de maconha em Israel

Nos morros do sudeste, nos sertões do nordeste, nas reservas indígenas do norte ao centro-oeste do Brasil, tenho certeza, muitos sofrem dessa mesma dor, mas o remédio lhes é proibido.

Deputados federais no Brasil ainda fazem uma campanha difamatória e injusta contra os usuários de maconha. Na verdade, até bem pouco tempo, o governo federal também insistia em campanhas publicitárias milionárias de TV, jornal e revistas, que culpavam os usuários de qualquer droga por todos os graves problemas de segurança nacional, saúde pública, evasão escolar e o que mais fosse possível, para encobrir o fato de que a guerra contra as drogas estava sendo perdida.

A legislação proibicionista já se esgotou e mostrou mais um exemplo de seu fracasso esta semana, por meio de um helicóptero recheado de pó, dinheiro e sangue. Quem sabe esta nave possa representar a imagem – quase cinematográfica – dessa derrocada, e da ressignificação das drogas no país?

Já que os EUA roubaram tanto de nossa cultura através de seus filmes, e nos influenciaram com tantas drogas, como os hambúrgueres do McDonald’s, a Coca-Cola, o Marlboro Light e, mais recentemente, o cafezinho do Starbucks, vamos derradeiramente aceitar o fato de que a maconha é remédio.

Será preciso que as instituições de ensino e pesquisa brasileiras se esforcem em 2014 para lançar nestas terras, embora com certo atraso, as primeiras sementes desta revolução, e se unam para fazer cair por terra argumentos não baseados em estudos científicos, dos quais se utilizam certos deputados, liderados por um determinado Osmar.

Por André Kiepper, 32 anos, Analista de Gestão em Saúde na Fiocruz
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