Além da descriminalização das drogas, Carl Hart afirma que a sociedade precisar ser “ensinada” sobre seu uso. O neurocientista também afirma que elas não viciam na proporção que se imagina, além de não prejudicarem o desempenho da pessoa, seja no trabalho, nos estudos e em diversos âmbitos da vida. As informações são da Folha de São Paulo.

Ele já usou drogas, traficou, cometeu pequenos crimes e costumava andar com uma arma no carro em Miami, onde vivia. Sobreviveu e escapou de ir preso, como aconteceu com amigos de infância.

Hoje aos 47 anos, o americano Carl Hart, é neurocientista e professor de neurociência da Universidade Columbia (EUA), defende a descriminalização das drogas e que pessoas sejam educadas para usá-las, reduzindo os danos.

Sob o ponto de vista neurocientífico, Carl Hart defende que drogas não viciam na proporção que se imagina -apenas 11% dos consumidores podem ser considerados viciados-, não prejudicam o desempenho de uma pessoa, nem causam danos cerebrais irreversíveis.

“Nossos três últimos presidentes [Bill Clinton, George Bush e Barack Obama] disseram ter usado. Não falo isso como demérito, mas para mostrar que se pode usar drogas e ser produtivo”, disse.

carlhart

Em viagem ao Brasil para divulgar seu livro “Um Preço Muito Alto” (ed.Zahar), Carl Hart falou à Folha. Leia abaixo trechos da entrevista.

Folha – Há alguns meses o governo do Rio decidiu internar compulsoriamente dependentes de crack. É eficaz?

Carl Hart – Não importa se é legal ou ilegal, o que importa é que não é ético. Mas, para entender isso, é preciso combater alguns pressupostos a respeito do crack e da cocaína. Muitas pessoas acreditam que quem usa droga fica fora de si, sem controle, o que é falso. Em alguns casos, a droga pode inclusive melhorar uma pessoa. A internação compulsória só impede que você veja aquela pessoa drogada pela sua vizinhança.

Então o que se deve fazer, por exemplo, com as crianças que usam drogas nas ruas?

Devemos assegurar que todos sejam bem tratados e que a sociedade seja justa. Essas crianças de rua, onde estão seus pais? Eles tiveram oportunidade de empregos, de aprender a criar seus filhos de forma que soubessem como atender as expectativas dessa sociedade?

O sr. diz ser um mito a crença de que o vício é inevitável. Por que essa afirmação é falsa?

Coletamos dados durante muitos anos e sabemos que o percentual de pessoas que usa cocaína ou outras drogas e não se vicia é de 89%. Os últimos três presidentes americanos usaram drogas. Obama contou ter consumido cocaína algumas vezes; Bush disse que fumou maconha; Clinton também, apesar de tentar nos convencer de que não tragou. Não falo isso como demérito, mas para mostrar que se pode usar drogas e ser produtivo.

As drogas causam danos cerebrais permanentes?

Usar cocaína é o mesmo que usar cafeína ou álcool. Há efeitos temporários que procuramos quando usamos: ficamos alertas, nos sentimos melhor. Um orgasmo também causa efeitos no cérebro, mas ninguém diz que ele mudou definitivamente por isso. Atribuir esses danos à cocaína e ao crack é uma forma de separar as “pessoas más que usam cocaína” das “pessoas boas que não usam”.

Se as drogas não viciam e não causam danos permanentes, por que combatê-las?

A política de combate só é benéfica para aumentar os orçamentos de segurança e favorecer aqueles ligados a essa indústria. Dizer que o crack é responsável pela criminalidade é mentir. No Brasil, antes da invasão das drogas, os moradores de favela frequentavam a universidade? As drogas podem exacerbar vários problemas, mas não são as causadoras.

Se as drogas são um problema social, como lidar com o tema?

São duas propostas. Do ponto de vista legal, defendo a descriminalização de todas as drogas, sem exceção. Isso não significa legalizar, mas tirar da esfera criminal. Do ponto de vista de educação, proponho o ensino do básico sobre o uso de drogas.

Como assim?

Coisas práticas, como dosagem. Quando há aumento de dose, aumenta-se o risco. Também precisam aprender que há organismos mais tolerantes. É necessário ensinar onde, como e com quem usar.