Breckenridge é uma cidade no Colorado que foi carinhosamente apelidada pelos brasileiros de “Beck”. A cidade de Beck é uma das poucas estações de esqui com uma loja que vende a erva, em cigarros já prontos, in natura ou como ingrediente de cookies e brownies. 

Confira a matéria produzida por, Fernanda Dutra, uma enviada especial do caderno “Boa Viagem”, do jornal O Globo que relata a primeira temporada de inverno após a liberação da venda da erva para uso recreativo, no Colorado.

BRECKENRIDGE – Um brasileiro desinformado poderia passar dias nas Montanhas Rochosas do Colorado sem notar sinais de que, desde 1º de janeiro, uma das ervas mais famosas do mundo pode ser plantada, vendida e usada legalmente por recreação no estado americano. A lei, pioneira nos Estados Unidos, inclui turistas: qualquer um maior de 21 anos pode comprar até sete gramas de maconha por loja.

Por enquanto, a novidade mudou pouco ou nada do cotidiano nas estações de esportes de neve. O Colorado convivia com a erva legalizada para efeitos medicinais desde 2000. Muitos locais compartilham a opinião do presidente Barack Obama, que disse acreditar que a substância não seja pior do que o álcool. A nova lei dá liberdade aos condados para decidir se concedem licença comercial às lojas especializadas. A maioria delas abriu em Denver, capital do estado, onde há até tours com visitas a plantações e degustações.

Entre as estações de esqui mais badaladas, a cidade de Breckenridge foi uma das primeiras a emitir licença a uma loja que funcionava há quatro anos com fins medicinais. Breck, para os íntimos, tem algumas das melhores pistas do estado de esqui e snowboard. Nesta temporada, estão ainda melhores pelo alto índice de neve — que deve garantir ótimas condições para esquiar até o último dia, 20 de abril.

Enquanto Breck faz a linha “cidade de verdade”, com calçadas sujas de neve derretida, as estações de Vail e Beaver Creek, no condado vizinho, são vilas planejadas quase perfeitas, voltadas para famílias. Até as calçadas são aquecidas, para impedir o acúmulo de neve. Nos dois resorts — nos quais não há lojas de maconha — as novidades mais comentadas da temporada são restaurantes, bares e atividades de neve.

Breckenridge. Cidade de mineradores tem novas ervas e pistas

No dia 1º de janeiro, às 7h da manhã, os mais ansiosos já faziam fila na porta da Breckenridge Cannabis Club (BCC), dentro de um simpático casarão amarelo na principal rua da cidade. O fenômeno se repetiu em todas as lojas licenciadas para venda de maconha no Colorado e ganhou o apelido de Green Wednesday (Quarta-feira Verde), em referência à Black Friday. Filas de até duas horas se prolongaram até o fechamento da loja, às 20h, e ainda são comuns nos fins de semana. Quando visitei a BCC, numa quarta-feira no início de fevereiro, a quantidade de vendedores era a mesma que a de clientes: três.

Um austríaco na casa dos 60 anos pediu à vendedora algo suave, já que não fumava desde os 20 anos. Outro casal americano, da mesma faixa etária, chegou querendo algo para enjoo. Entrei com o passaporte na mão, esperando ser abordada por um guarda logo na porta, mas só encontrei placas de cash only (somente dinheiro) e a marca da BCC. No topo da escada, na parede, fica a licença emoldurada que garante o direito de vender maconha para uso recreativo. Em duas salas, vendedoras sorridentes recepcionam quem entra, o que desfaz a sensação de se estar observando algo ilegal ou imoral. Um dos gerentes, Josh Smith conta que não teve dificuldade de tirar a licença.

— Para o governo, era melhor licenciar lojas já com experiência. Desde 2010, vendíamos maconha para fins medicinais, e nos adaptamos para a nova lei. A embalagem já não precisa ser opaca, ainda que você não possa exibir na rua. Os itens comestíveis antes não tinham limite de Tetraidrocanabinol (THC, a substância que “dá o barato”). Agora, têm. E contratamos cerca de 30 pessoas — diz Smith.

Conversas sobre maconha no Colorado quase sempre envolvem nomes de substâncias, plantas e quantidades. Por conta do uso medicinal, muitos defensores da erva têm dados e números científicos na ponta da língua, além de trocadilhos (que parecem ser inerentes à erva). Os budtenders (numa tradução livre, becktenders) trabalham como se fossem bartenders e apresentam as dez variedades do dia, com nomes como Apollo 13, Sublime e Purple Dream, explicando as diferenças entre espécies das plantas sativa, a mais conhecida por aqui, ou indica. A primeira é considerada estimulante e indicada para o dia. A segunda, relaxante e indicada para a noite. Há versões híbridas, com porcentagens variadas das duas.

— Já plantávamos mais de 70% do que vendíamos, por determinação da lei de venda de maconha para uso medicinal. Mas queremos aumentar esse índice, com uma nova área de plantação, pois sai muito mais barato — explica Smith, que cita suas variedades preferidas. — A Grape Ape é uma indica forte com propriedades estimulantes, e a Chem Dawg, uma bela híbrida original dos anos 1970.

A quantidade de comidinhas doces é grande. A Incredible, por exemplo, já fazia chocolates artesanais antes de acrescentar maconha aos ingredientes de suas barras. A Growing Kitchen tem uma variedade de cookies e brownies orgânicos, com versões para celíacos, intolerantes a lactose e veganos. Cada pacote só pode ter 100 mg de maconha na receita — e os budtenders orientam com veemência a não comer um inteiro, já que a dose comestível recomendada é de cinco a 25 miligramas. Mesmo assim, um cliente virou lenda ao comprar 70 pacotinhos, pagando em dinheiro US$ 1.600. O grama de maconha custa desde US$ 10 assim como os cookies; enquanto os cigarros prontos saem a partir de US$ 15. A conta final acrescenta um imposto de 25% — que deve render uma arrecadação, no próximo ano fiscal, de US$ 1 bilhão ao Colorado.

A lei proíbe fumar em locais públicos e nas pistas — todas em área de parques nacionais. Para desestimular os turistas a levarem a erva para casa, o aeroporto de Denver proibiu a posse de maconha em suas dependências. O que muitos visitantes têm feito é reservar residências em sites como o Airbnb.com — onde, das centenas de anunciantes nas Montanhas Rochosas do Colorado, só dois se anunciavam cannabis friendly — para garantir uma varanda ou quintal nos fundos. Ou reservar quartos de hotéis com varanda — mas é bom se informar se o hotel tem política contra cigarros. As restrições não se aplicam às comidinhas ou aos vaporizadores.

Embora a BCC seja a novidade mais quente de Breck, apelidada pelos brasileiros de Beck, a cidade tem mais do que isso a mostrar. Nesta temporada, a estação abriu a gigantesca Pico Seis, com 187 novas trilhas espalhadas por mais de 1.200 hectares (mais de 400 em altitude acima da linha das árvores, no topo das montanhas). Segundo o site especializado Onthesnow.com, Breck foi a estação do país que mais recebeu neve em janeiro, com três metros. Breck divide os picos por “personalidade”: a seis é descrita como playground para esquiadores intermediários e avançados. A sete tem mais pistas para intermediários ; a oito é para os avançados, acima do nível das árvores; a nove concentra iniciantes, e a dez tem pistas abaixo do nível das árvores.

E não falta personalidade à cidade. Fundada na década de 1850 na corrida pelo ouro, tem o maior conjunto de construções históricas do Colorado. Enfileiradas na Main Street, as casinhas coloridas de madeira abrigam lojas, restaurantes, bares e museus. Entre eles, há um dedicado ao esqui, com memorabilia histórica, e outro, à história de Barney Ford, um escravo que escapou para o Colorado em 1860 e se tornou um nome importante na luta pelos direitos civis dos negros.

Escondida pela neve, nos fundos de um centro comercial, o sebo Ole Man Berkins tem uma seleção enorme de títulos, roupas e chapéus vintage. Quase nunca, porém, suas portas estão abertas. Um recadinho na porta avisa aos clientes “O velho Berkins está descansando. Mas, por favor, me ligue, e se eu estiver por perto (provavelmente estarei), venho abrir a loja. P.S. Quebre o seu Kindle”. A título de curiosidade: Berkins tem até cópias de “O apanhador no campo de centeio”, de J.D. Salinger, com a arte original na capa. Também escondido em um centro comercial, o Rasta Pasta representa um tico do espírito de Breck. Porções generosas de receitas inspiradas na culinária jamaicana são servidas ao som de Bob Marley.

A Breckenridge Brewery, com rótulos de cervejas artesanais à venda no país, nasceu aqui na década de 1990 — obra de um tipo comum nas estações, o “esquiador vagabundo”, que só faz bicos para se manter nas pistas. Richard Squire acabou criando uma das primeiras cervejarias artesanais de um estado hoje famoso pela qualidade das suas. A cervejaria tem quatro rótulos sazonais e quatro envelhecidos em barris de uísque ou vinho, além da linha comum que inclui a amber ale Avalanche. Um pub da cervejaria com vista para as pistas funciona também na Main Street.