“Cumpádi, você pode não acreditar, mas peguei peguei QUATRO latas! Já em Sampa, guardei uma que já estava aberta para consumo próprio. E pra fazer uma presença com a rapeize, morou? As outras três? Troquei por uma Parati 87, quase zero, bicho.*”

* DIÁLOGO ESCRITO COM BASE EM DEPOIMENTOS ENCONTRADOS EM CRÔNICAS E NOTICIÁRIOS DA ÉPOCA.

cards-verao-da-lata-fato1Para muita gente, avistar e  recolher uma lata no mar daquele Verão era como acertar na loteria. Os usuários da erva sentiam que haviam tirado na sorte grande ao escapar da polícia e dos traficantes ao mesmo tempo. E a polícia sabia o que essas pessoas fizeram no verão de 1987, sabia mas não pode fazer muita coisa. Era muita, mas muita lata invadindo 2 mil quilômetros de praias, do litoral do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul.

Mesmo quem não consumia a droga, caçava as latas. Durante o dia, as latas eram escondidas na areia e revendidas mais tarde para intermediários.

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Alguns surfistas viraram traficantes, pescadores e marinheiros trocavam as latas que tinham alto valor no cards-verao-da-lata-fato2mercado negro por pranchas, redes de pesca, carros e até casas. “São pessoas humildes, que tentavam ganhar dinheiro fácil e acabaram se dando mal”, afirmaram policiais aos repórteres quando prendiam caiçaras que vendiam a lata por 8 mil cruzados para quem vinha buscar na fonte. Já os traficantes chegavam a passar para frente o conteúdo por cinco vezes mais. Um caseiro foi preso com 334 latas escondidas numa mansão em Angra dos Reis.

MAS PORQUE SERÁ QUE OS TRIPULANTES DO SOLANA STAR TIVERAM QUE JOGAR SUA PRECIOSA CARGA NO MAR?

Existem duas versões dessa história. Descubra qual é a verdadeira no Verão da Lata, produção original HISTORY que será exibida em 6 de dezembro, a partir das 22H. 

O Solana Star partiu da Austrália e parou para recolher sua preciosa carga em Singapura, no sudeste da Ásia. Seu destino oficial era o Panamá, mas, no caminho, a droga seria infiltrada nos EUA, a partir de Miami. Depois de navegar por 65 dias, o barco começou a ser perseguido pela Marinha e Guarda Costeira perto de Angra dos Reis, após ter que fazer uma baldeação de emergência no Brasil.

cards-verao-da-lata-fato3A DEA (Drug Enforcement Administration) fez o alerta sobre a carga do Solana Star para as autoridades brasileiras, enquanto o navio ainda estava na metade do caminho para cá. Um grupo de 15 a 20 homens promoveu uma caçada ao Solana Star por duas semanas, com o apoio de aeronaves, utilizando até uma fragrata e um contratorpedeiro da Marinha do Brasil. Foi uma verdadeira operação de guerra.

Para se livrar do flagrante, as aproximadamente 22 toneladas de maconha foram despejadas próximo a Ilha Grande, na costa do Rio de Janeiro. No início, as correntes marítimas espalharam as latas principalmente nos litorais paulistas e cariocas.

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Antes de jogar as 15 mil latas que tinham entre 1,3 e 1,5 kg de maconha fora, os tripulantes que estavam sem comida e água potável, pensaram em afundar o Solana Star com toda a carga dentro. Pegariam outro barco nos EUA, retornando para buscar o carregamento no fundo do mar meses depois.

Seis norte-americanos e um costa-riquenho, com idades entre 32 e 52 anos, foi a tripulação registrada do Solana Star que desembarcou no Rio de Janeiro. O cozinheiro foi único preso.

cards-verao-da-lata-fato6Após três vistorias, apenas dez centigramas de maconha foram encontradas pela polícia nos depósitos do Solana Star, onze dias depois de sua ancoragem no Rio de Janeiro.

Cem dólares por dia de viagem foi o pagamento combinado verbalmente entre o Primeiro Oficial John Powers e Stephen G. Skelton para trabalhar como cozinheiro e ajudante geral do Solana Star. Ele seria pago ao desembarcar “no Panamá”, segundo seus depoimentos para a polícia.

Stephen G. Skelton foi condenado a 20 anos de cadeia, mas foi absolvido em segunda instância, após passar um ano na prisão. Uma carga de 22 toneladas, como a do Solana Star, renderia por volta de 90 milhões de dólares aos traficantes internacionais.

cards-verao-da-lata-fato5No Brasil, por conta da “qualidade superior da erva”, cada lata de maconha poderia ser comercializada por até 500 dólares na Zona Sul do Rio de Janeiro. Matérias de jornal publicadas na época dizem que esses 500 dólares correspondiam a 30 mil cruzados, e que os pescadores e caiçaras vendiam a mesma quantidade de erva da lata por 4 a 8 mil cruzados para os intermediadores.

Das 15 mil latas lançadas ao mar, a polícia só conseguiu apreender 2.563 latas, conforme os registros oficiais. O resto foi consumido ou se perdeu nos mares brasileiros.