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O que faz mais fumaça: um cigarro de maconha ou várias bombas da polícia? Qual fumaça é mais tóxica e venenosa. Pq espalhar gás na UFSC? – Henrique Carneiro via twitter

Uma grande confusão, envolvendo estudantes e policiais federais, movimenta as atenções no campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Nesta terça-feira (25) houve confronto de agentes da Tropa de Choque com estudantes, pela prisão de um aluno que portava maconha dentro da instituição.

Segundo informações do portal Terra e do Estadão, a confusão ocorreu depois que policiais federais à paisana flagraram três alunos carregando uma pequena quantidade de maconha próximo ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas. A confusão começou quando estudantes e servidores se reuniram para impedir que os detidos fossem levados à delegacia.

No final da tarde, a Tropa de Choque da PM foi acionada para dispersar cerca de 300 alunos que se aglomeraram no local. Dois veículos, que a principio seriam utilizados pela Polícia Federal, foram virados pelos alunos, que depois decidiram ocupar a reitoria da Universidade como forma de protesto. 

Após o tumulto que resultou em cinco estudantes presos e dezenas de feridos, os alunos decidiram passar a noite no prédio da reitoria. Ao final das deliberações, como forma de protesto, alguns estudantes acenderam seus baseados e chamaram pela presença da Polícia Federal.

Em assembleia realizada pelos próprios estudantes, eles decidiram permanecer no local até o encontro que será realizado com a reitora Roselane Neckel. O clima de revolta é contra a ação da Polícia Militar, que disparou balas de borracha contra o jovens, e com a Polícia Federal, que prendeu os estudantes que carregavam uma pequena quantidade de maconha na mochila.

O presidente do Instituto Cannabis, Lucas Lichy, destacou que a organização (que trabalha com estudos sobre o uso terapêutico da cannabis e foi recentemente reconhecido pela Justiça) irá auxiliar juridicamente os cinco estudantes presos e aqueles que se feriram no tumulto. “Lamentamos profundamente o que aconteceu, acendemos maconha aqui como uma forma de protesto”, disse. “Já deslocamos advogados para ajudar os que foram presos e estamos aqui para dar toda assistência aos maconheiros”.

Conhecido após disputar as eleições para vereador com o personagem Presidente THC, Lucas de Oliveira também participou do protesto dentro da Reitoria. “Fumamos aqui para protestar contra a ação da PM.

“Universidade tornou ilha de excelência onde havia democracia. O que aconteceu hoje aqui ultrapassou todos os limites e pareceu com as coisas que a ditadura militar fez no passado”, disse. “Jogaram bombas e atiraram a esmo nas pessoas. Nossa reação é essa: ocupamos a reitoria e vamos ficar aqui até que os estudantes sejam liberados e que a policia garanta que não vai mais invadir o campus”.

Levante do Bosque

O movimento, organizado por meio do Facebook e intitulado “Levante do Bosque“, emitiu na noite de terça um comunicado explicando os motivos da ocupação da reitoria da universidade. Eles exigem a polícia fora do campus, um novo projeto de iluminação para a universidade, afastamento e punição dos responsáveis pela operação policial que desencadeou o conflito. Também pedem a revogação de um memorando da UFSC que autoriza a entrada da PM e proíbe festas dentro do campus.

No final da noite de terça, o gabinete da reitoria da UFSC divulgou uma nota de repúdio à ação das polícias Federal e Militar dentro do campus. Segundo o texto, assinado pelas reitoras Roselane Neckel e Lúcia Helena Pacheco, a “comunidade da UFSC foi vítima de uma ação violenta e desnecessária, comandada por delegados da Polícia Federal, ferindo profundamente a autonomia universitária e os direitos humanos e qualquer protocolo que regule as relações entre as instituições neste País.” Elas reafirmam que em nenhum momento a ação da polícia foi solicitada pelo gabinete.

Às 16h desta quarta-feira, a reitoria vai realizar uma audiência pública para discutir o episódio e a relação da Universidade com as polícias. A reitora Roselane Neckel estará presente.

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Leia a íntegra da nota de repúdio da reitoria da UFSC

“Hoje, 25 de março, a comunidade da Universidade Federal de Santa Catarina foi vítima de uma ação violenta e desnecessária, comandada por Delegados da Polícia Federal, ferindo profundamente a autonomia universitária e os direitos humanos e qualquer protocolo que regule as relações entre as instituições neste país.

A partir do momento em que fomos informadas, por terceiros, sobre a ação da PF, suspendemos a reunião que estava em andamento com o comando de Greve local dos Técnicos Administrativos em Educação e imediatamente telefonamos para o Superintendente da Polícia Federal em exercício, Paulo Cassiano Junior, para solicitar esclarecimentos sobre a ação que estava sendo realizada. Nunca fomos informadas sobre a realização desse procedimento. Lembramos ao Delegado que em todos os contatos com a Polícia Federal sempre foi solicitado que quaisquer ações de repressão violenta ao tráfico de drogas fossem realizadas fora das áreas da Universidade.

Segundo relatos que nos foram feitos por telefone a imagem era de terror. Antes mesmo de quaisquer conflitos existirem já estavam presentes um grande efetivo, a tropa de choque, armas de bala de borracha e cachorros.Um efetivo pronto para o conflito, foi isso que encontraram os que foram até o local, inclusive representantes da Reitoria.Tentamos incansavelmente negociar com o Superintendente em exercício. A intransigência era clara e foi percebida por todos os presentes.

Foram agredidos muitos estudantes, técnicos administrativos e professores. Estavam presentes vários membros da Administração da Universidade. A Direção do Centro de Filosofia e Ciências Humanas acompanhou todos os momentos. O Diretor do CFH, Paulo Pinheiro Machado, foi agredido. Estavam presentes também o Chefe de Gabinete da Reitoria, Carlos Vieira, o Procurador Chefe, Cesar Azambuja e outros Secretários e Diretores da Administração Central. Toda a comunidade e autoridades universitárias foram profundamente desrespeitadas.

Em vários momentos já destacamos que agir dessa forma dentro do campus poderia colocar em risco a vida das pessoas. As crianças saiam do Núcleo de Desenvolvimento (NDI) e entraram em pânico no momento em que as bombas de gás começaram a ser lançadas. O cenário rememorava os períodos vividos nos mais violentos regimes de exceção.

Enquanto os relatos chegavam ao Gabinete, estávamos em constante contato com a Secretaria de Relações Institucionais, com o Ministério da Justiça e a Secretaria de Direitos Humanos em Brasília, solicitando uma mediação desses órgãos para que não ocorresse um previsível desfecho violento.

Reafirmamos nosso total repúdio ao lamentável episódio vivido hoje pela Comunidade Universitária. E reiteramos que, em nenhum momento, solicitamos ou fomos previamente informadas dessa ação.

Por que tanta truculência, intransigência e obstinação em levar adiante uma situação que já se anunciava como tragédia, enquanto outros caminhos mais lúcidos e racionais foram apresentados, os quais seriam dignos de uma autoridade de Estado?

Nos comprometemos a tomar as medidas cabíveis para preservar a UFSC e defender todos os que foram vítimas desse ato de violência.

Florianópolis, 25 de março de 2014″.

Ilustração Alpino