Em entrevista à Zero Hora, ex-presidente mexicano autodefinido ativista pela regulamentação da maconha fala sobre a legislação uruguaia, narcotráfico e bolivarianismo

Ex-presidente do México e hoje um autodefinido “ativista” pela regulação da maconha, Vicente Fox diz que a terça-feira, dia da aprovação do projeto uruguaio para comércio e produção da Cannabis, foi “de festa” para ele. Aos 71 anos, Fox, o homem que rompeu a hegemonia do Partido Revolucionário Institucional (PRI), deixou a política. Faz questão de enfatizar isso. Dedica-se agora à fundação que leva seu nome e a cuidar das propriedades rurais onde mantém o plantio de hortaliças. A respeito dessas propriedades, aliás, diz que não têm o solo propício para o plantio da Cannabis. Só por isso, não deverá plantá-la se um dia o projeto for aprovado também em solo mexicano.

No Uruguai, o projeto tão festejado por Fox passará por quatro meses de regulamentação, nos quais serão definidos detalhes ainda não contemplados. Sendo assim, a lei vai vigorar a partir de abril.

Leia trechos da entrevista de Fox, concedida por telefone:

Zero Hora – Foi aprovada a regulação da Cannabis no Uruguai, e o senhor é um defensor da liberação e regulação. Como vê a aprovação?

Vicente Fox – Para mim, é um dia de festa, pois um país latino-americano, o Uruguai, e um presidente latino-americano tomaram essa decisão, o que os põe na vanguarda. Me parece que o Uruguai vai ganhar uma grande reputação. O país está tomando a medida correta, vai conseguir evitar ser um território com violência e narcotráfico, como temos no México. É uma decisão muito vanguardista, uma solução correta para os problemas que a droga e seu consumo trazem.

ZH – O senhor acredita que uma decisão dessas no México poderia diminuir a violência por causa do narcotráfico?

Fox – Sim, definitivamente, sim. É uma mudança de paradigma. As proibições não funcionam, nunca funcionaram. Nós, seres humanos, não aceitamos proibições arbitrárias, nós, cidadãos, não aceitamos que o governo imponha critérios e comportamentos a nós, cidadãos livres. Podemos decidir por conta própria o que consumir. O mais importante é que, se separarmos da saúde o crime, o consumo e a droga, vamos poder atender a saúde corretamente, com programas de prevenção, informação, educação, e consumo responsável. Isso se faz com o dinheiro que se ganha com a legalização. A legalização é uma transferência de recursos dos criminosos para o governo. Minha família se dedica à agricultura. Plantamos alface, brócolis, couve. O dia de amanhã pode ser um cultivo mais. O problema é que nossa região não é a melhor para plantá-la.

ZH – O senhor uma vez disse que semearia na sua propriedade. Tem essa intenção?

Fox – Não, não tenho intenção, essa é uma maneira de expressar minha convicção. Minha convicção é que, uma vez legalizado o assunto e terminada a proibição, o tema é acessível a qualquer cidadão, a qualquer agricultor e empresário, no lugar do criminoso, no lugar de homicidas e assassinos fazendo negócio. Não sou um promotor da legalização da maconha, sou um ativista. Estou trabalhando para isso no México e nos Estados Unidos.

ZH – Há críticas clínicas de psicólogos e psiquiatras. O senhor não crê que haja problemas para adolescentes, principalmente?

Fox – A lei vai se regular, colocar uma idade a partir da qual se pode consumir. O que haverá é um consumo responsável, ou, como se chama nos Estados Unidos, consumo recreativo. Do outro lado está a legalização, é extremamente legal em 22 Estados dos Estados Unidos, consumir maconha e Cannabis para uso medicinal. E também para muitas outras drogas. Então, para esses que dizem que pode afetar a saúde, precisam conhecer um pouco mais os efeitos.

ZH – Hoje (anteontem) houve a cerimônia fúnebre do presidente Nelson Mandela, e a presidente Dilma discursou. Isso é importante para a América Latina?

Fox – O impacto que Mandela, provocou com seu exemplo, com suas realizações de vida, é muito importante para a América Latina. Como democratizador, como defensor dos direitos humanos e como uma pessoa que soube passar da violência armada à compaixão, ao amor e ao diálogo democrático que ele mesmo promoveu no resto da sua vida ao sair da prisão. Como um presidente e um líder, que buscou a compaixão, o amor pelos demais, que buscou a paz e da harmonia nas comunidades e na nação, ele é um exemplo maravilhoso para toda América Latina, para o México e para mim pessoalmente.

ZH – O senhor crê que é adequado o que a presidente Dilma falou hoje (anteontem)?

Fox – Claro, foi totalmente adequado. Seguramente, ela reconheceu em Mandela a força do diálogo, a força da palavra democrática, a força de falar a verdade, a força de falar com compaixão, entendendo a dor dos demais, entendendo pessoas que sofrem discriminação, entendendo o pobre, entendendo o diferente. Acredito que Mandela seja um grande exemplo para o Brasil, para Dilma, para mim e para o México.

ZH – Na América Latina, agora, parece haver uma divisão muito grande entre países como Brasil, Uruguai e Paraguai e o grupo que se autointitula bolivariano, que não aceita uma visão globalizada, de acordos internacionais. Como o senhor vê isso?

Fox – Os bolivarianos estão totalmente equivocados. Essa revolução bolivariana é uma distorção total dos princípios de Bolívar. É um ato de supremo egoísmo, de supremo exercício de poder não democrático, como exerceu Hugo Chávez, e, agora, Nicolás Maduro. Esse comunismo, esse socialismo pregado é uma tapeação, é uma mentira, é populismo puro, é demagogia. Espero que o povo da Venezuela siga adiante com sua luta e mandem logo o senhor Maduro embora.

ZH – Qual seu futuro político?

Fox – Quando se tem 71 anos e uma vida por trás, o tema partidário é superado. Meu trabalho é com a fundação Centro Fox, a fundação mais exitosa do México.

ZH – O que o senhor achou do aperto de mãos entre os presidentes dos EUA, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro?

Fox – Os fatos marcam convicção. É uma bobagem a posição que sustentam os Estados Unidos por décadas quanto ao bloqueio a Cuba. O único perdedor com esse bloqueio foram os próprios Estados Unidos. Todos os outros países da América temos relações com Cuba, acima de questões ideológicas. Os EUA têm de mudar sua postura de forma urgente. O presidente Obama tem tantos problemas internos que não passará de uma fotografia. Ele precisa ter uma liderança para fazer mudanças, e a liderança de Obama está muito debilitada. O presidente Obama não tem força política para tocar adiante uma mudança.

Via ZERO HORA