Maconha na direção: pesquisas sugerem que risco de acidentes é baixo e especialistas afirmam que repressão ao álcool deve ser o foco

Motoristas chapados conduzem de forma diferente de bêbados. Motoristas bêbados tendem a dirigir mais rápido do que o normal superestimando suas habilidades, enquanto o condutor chapado acaba sendo o oposto. Confira o que dizem os estudos, com informações O Globo.

Quem é parado por suspeita de dirigir embriagado nos Estados Unidos normalmente é submetido a três tipos de exame: seguir com os olhos uma caneta enquanto o policial a move para frente e para trás; sair do carro e andar nove passos sobre uma linha; e sustentar o peso de seu corpo sobre uma perna por pelo menos 30 segundos. Quem cumpre bem estas etapas tem grandes chances de não estar bêbados. Mas a eficiência do teste é quase nula no caso de usuários de drogas como a maconha.

Em estudo feito em 2012 e publicado na revista “Psychopharmacology”, apenas 30% das pessoas sob a influência de THC – principal substância psicoativa da maconha – falhou nesses testes. A capacidade de identificar um motorista sob efeito da droga depende, segundo a pesquisa, se ele está pouco acostumado a usar o entorpecente.

Um jovem de 21 anos que bebeu pela primeira vez ou um alcoólatra vão oscilar nos erros com a mesma frequência. Já quem fumou maconha pela primeira vez apresenta 50% mais de chance de falhar nos testes do que quem está acostumado.

À medida que mais estados americanos legalizarem a maconha para uso recreativo e medicinal, distinções como estas vão ter ainda mais importância. Mas as respostas da ciência para questões cruciais sobre a condução de veículos por pessoas sob efeito da droga – qual o perigo, como testar seus efeitos e como os riscos são comparados com os de motoristas embriagados – têm caminhado lentamente para atingir o público em geral.

– Nosso objetivo é fazer com que a ciência seja utilizada para a política de drogas baseada em evidências – disse Marilyn A. Huestis, pesquisadora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas.

Um outro estudo, feito em 2007, descobriu que 12% dos motoristas parados aleatoriamente em estradas americanas entre sexta-feira e sábado à noite haviam bebido. (Em troca de participar do estudo, os motoristas intoxicados foram informados de que não seriam preso, apenas levados para casa).

No total, 6% dos motoristas apresentaram resultado positivo para a maconha – um número que tende a subir com o aumento da disponibilidade. Alguns especialistas e oficiais estão preocupados que as campanhas de conscientização sobre os perigos do álcool na direção não tenham chegado até os fumantes de maconha.

– Fizemos pesquisas por telefone e ouvimos um monte de gente falar que as leis da DUI (sigla para “driving under the influence”, em tradução livre dirigir sob influência, que criminaliza a direção após o consumo de álcool acima do permitido) não se aplicam a maconha – afirmou Glenn Davis, gerente de segurança de estradas do Departamento de Transporte do Colorado, onde o uso recreativo da droga se tornou legal em 1º de janeiro. – E há sempre alguém que diz: “Eu dirijo melhor quando estou chapado”.

Risco reduzido

As evidências sugerem que não é bem assim. Mas também apontam que não devemos ter tanto a temer de motoristas sob efeito da droga do que de condutores embriagados. Alguns pesquisadores dizem que os recursos limitados serão melhor aplicados no combate aos motorista bêbados. Condutores chapados, dizem eles, são simplesmente menos perigosos.

Ainda assim, é claro que o uso da maconha afeta a capacidade de condução, afirma Marilyn. Ela observou que vários pesquisadores, em trabalhos independentes, encontraram a mesma estimativa: o aumento de duas vezes no risco de um acidente se houver qualquer quantidade mensurável de THC na corrente sanguínea.

A estimativa é baixa, no entanto, em comparação com os perigos de dirigir embriagado. Um estudo recente de dados sobre os acidentes federais sugeriu que motoristas de 20 anos, com um teor de álcool no sangue de 0,08% – o limite legal de condução – aumentaram em 20 vezes o risco de um acidente fatal em comparação com motoristas sóbrios. Para os adultos mais velhos, de até 34 anos, o aumento foi de nove vezes.

Eduardo Romano, autor do estudo e pesquisador no Instituto do Pacífico para a Pesquisa e a Avaliação, disse que uma vez que ajustou a pesquisa demograficamente e pela presença de álcool, a maconha não aumentou estatisticamente o risco de um acidente.

– Apesar de nossos resultados, eu ainda acho que a maconha contribui para o risco de acidentes – avaliou Romano. – Só que a sua contribuição não é tão importante como era esperado.

A diferença de risco entre maconha e álcool provavelmente pode ser explicada por duas coisas, segundo Marilyn e Romano. Primeiro, motoristas chapados conduzem de forma diferente de bêbados, e eles têm diferentes deficiências. E segundo, motoristas bêbados tendem a dirigir mais rápido do que o normal e superestimar suas habilidades, mostraram estudos; o oposto é verdadeiro para os motoristas chapados.

– A piada com isso é Cheech e Chong (filme que virou febre nas década de 70 e 80 e que tem como personagens principais uma dupla de humoristas que caracterizavam usuários de maconha) sendo preso por andar a 20km/h na estrada – contou Mark A.R. Kleiman, professor de políticas públicas da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).

Marilyn também constatou que, em estudos de laboratório, a maioria das pessoas que estavam sob efeito de maconha passava em testes simples de memória, soma e subtração, mas eles tinham que usar mais sua capacidade cerebral do que pessoas sóbrias. Aqueles que estavam bêbados tinham propensão muito maior a falhar.

As dificuldade de pessoas chapadas começavam a aparecer, segundo Marilyn, quando tinham de lidar com várias tarefas ao mesmo tempo e foram confrontadas com algo inesperado.

– É comum ver um jovem adolescente com três ou quatro amigos no carro – disse ela, se referindo a um condutor sob efeito da droga. – Ele está consciente de que não está em sua condição normal, por isso dirige com cuidado. Mas então aparece um idoso no meio da rua. Todos os seus sentidos dizem, “esse cara está lá, mas estará fora do meu alcance na hora que eu chegar lá”. Mas, então, o idoso deixa a chave cair e é mais lento do que o garoto esperava. Pelo tempo que leva para processar uma mudança na situação, acontece um acidente.

Formas diferentes de medir o THC

Existem muitos debates sobre qual a melhor forma de provar que os motoristas sob a influência de THC estão muito chapados para dirigir. O teor de álcool no sangue pode ser testado de forma confiável com um bafômetro, e tem como base pesquisas que apontam a quantidade de álcool no sangue que afeta as habilidades de condução. O mesmo não acontece com a maconha.

Níveis de THC são medidos em amostras de sangue ou urina, que normalmente são retiradas horas após a prisão. Os testes de urina, que buscam um metabólito do THC e não a droga em si, dão positivo se a pessoa fumou dias ou semanas antes. No entanto, a maioria dos estados têm leis que equiparam qualquer nível detectável do metabólito do THC na urina com níveis detectáveis de THC no sangue, e criminalizam os dois. Apenas seis estados estabeleceram limites legais para a concentração de THC no sangue. No Colorado e em Washington, onde o uso recreativo foi legalizado, esse limite é de cinco nanogramas por mililitro de sangue, ou cinco partes por bilhão.

O problema, diz Marilyn, é que os estudos da Europa sugeriram que esses limites eram muito altos. Noventa por cento dos casos de mudanças na forma de condução na Suécia seriam perdidos se o nível estabelecido fosse o mesmo.

Os estudos indicaram que um limite melhor seria apenas um nanograma por mililitro, explicou Marilyn. Mas porque o THC se acumula no tecido adiposo e é liberado lentamente ao longo do tempo, esse limite poderia confundir exames de usuários frequentes que poderiam não estar chapados na condução. De fato, se você fuma com uma frequência suficiente, o seu teor de THC no sangue pode ultrapassar as cinco nanogramas por mililitro um dia após o uso.

Os fatos levam especialistas como Romano e Marilyn a acreditar que os recursos públicos seriam melhor utilizados se destinados ao combate de motoristas bêbados. Segundo eles, é melhor desencorajar as pessoas a misturar maconha e álcool – uma combinação que é ainda mais arriscada do que o álcool sozinho – e criar políticas que minimizem o risco de maconha na estrada.

De acordo com Kleiman, uma medida seria proibir estabelecimentos que incentivem o consumo da maconha na rua. Já Romano acredita que a redução da concentração legal de álcool no sangue (BAC, na sigla em inglês) para 0,05% ou 0,02% reduziria o risco de acidentes bem mais do que qualquer esforço para conter a condução sob efeito da maconha.

– Eu não estou dizendo que a maconha é segura – ressaltou Kleiman . – Mas, para mim, é claro que a redução do BAC deve ser a nossa prioridade. Essa política poderia salvar mais vidas.