Enquanto a legalização não chega a Nova York, compra-se doce da erva legalmente nas ruas, a escritora Martha M. Batalha, lá em Nova York contou tudo pra época e trouxemos na integra pra você o texto completo.

Há algumas semanas eu estava andando em Manhattan rumo à Union Square quando me perguntaram se eu queria um pirulito de maconha. A oferta não foi feita à noite ou em algum canto obscuro da rua, mas às quatro da tarde nas esquinas da rua 14 com Sétima Avenida, por uma morena de um metro e oitenta, salto alto e vestido de oncinha, em frente a uma van decorada com folhas de maconha gigante, em companhia de outra morena de visual semelhante e que gritava:

AQUI!!! PIRULITOS DE MACONHA!!! MACONHA!!! MACONHA!!! AQUI!!!!!

Olhei pra um lado, olhei pro outro e perguntei: Pode? E descobri que sim, pode. O doce era legal (no sentido da lei mesmo), e por cinco dólares eu levaria um pirulito de maconha nos sabores Viúva Branca, Sonho Azul ou Tosse de Morango.Os pirulitos vendidos eram produzidos pela Weed World Candies, uma fábrica de doces que usa quantidades mínimas de THC, substância presente na maconha, na fabricação de balas, brownies, cupcakes, bolos e cookies. Os produtos são entregues pela van ou pelo correio em embalagens discretas – quem fizer uma encomenda pelo website não terá a moça da foto batendo na porta e perguntando a sua mãe se pode colocar o bolo de maconha na mesa de jantar.

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Nos Estados Unidos a legalização da maconha é um processo – acontece de forma lenta e contínua. Alguns estados autorizaram o uso medicinal. Outros descriminalizaram o uso da droga, impedindo a detenção de usuários portando pequenas quantidades. Recentemente, Colorado e Washington autorizaram o uso da maconha para fins recreativos por adultos maiores de 21 anos. Que lado escolher? Sim ou não? Uma boa dica é primeiro se aprofundar no tema: de acordo com o Departamento de Políticas Nacionais contra Narcóticos, nos últimos 40 anos os Estados Unidos gastaram um trilhão de dólares no combate às drogas –  e metade desse valor foi gasta apenas no combate à maconha. Só este ano 389.744 pessoas foram detidas por uso ou posse de maconha.

Estudos médicos afirmam que a maconha tem o poder de diminuir tumores e efeitos colaterais da quimioterapia. Ela também diminui a pressão ocular e é indicada para o tratamento de glaucoma – em 1978 o americano Robert Randall processou o governo dos Estados Unidos após ser preso fumando maconha por sofrer de glaucoma. Ganhou a causa, e o Governo foi obrigado a plantar a erva e fornecer a Randall 300 cigarros por mês.

A história de que a maconha mata neurônios seria uma lenda, de acordo com um estudo mal feito com macacos que receberam doses cavalares de maconha através de uma máscara de gás – o equivalente a 63 cigarros em menos de cinco minutos. Os macacos foram sufocados: foi a falta de oxigênio que comprometeu as funções do cérebro.

A maconha afeta, sim, a memória recente daqueles que a utilizam em excesso. E se ela parece inofensiva para adultos responsáveis, pode ser extremamente nociva para adolescentes em formação. Quem quiser se aprofundar no tema pode ver o excelente documentário The Union, pelo Youtube. A maconha é uma das 50 drogas fundamentais da medicina chinesa. É utilizada pelos homens há mais de quatro mil anos. No ano passado, 26 mil pessoas morreram nos Estados Unidos por overdose de medicamentos, e outras 23
mil por alcoolismo. Não há registro de mortes causadas por uso de maconha.

A meu ver, diante do desperdício de dinheiro e dos resultados desanimadores, o certo parece ser legalizar a droga, mas o tema é muito mais complexo do que parece. No mês passado um artigo no jornal The New York Times abordou a questão. O artigo é baseado numa entrevista com Mark Kleiman, que comanda o time que regula o uso da maconha em Washington.

Seguem algumas questões:

1) Como definir o preço do imposto sobre a droga, de modo que seja alto o suficiente para desencorajar o uso constante, mas não tão alto a ponto de fazer com que apareça um mercado negro de venda da droga?

2) Como fazer com que a venda de maconha não esteja concentrada na mão de poucas pessoas,poderosas o suficiente para investir em lobby e numa violenta campanha de marketing, estimulando o consumo desmedido? O grande lucro não está nas pessoas que fumam esporadicamente, mas naquelas que fumam todos os dias, e muito.

3) Como criar um processo de inspeção da droga, de modo que seja seguro seu consumo? (A maconha pode conter pesticida, mofo e até salmonela.)

4) Como inspecionar motoristas que podem dirigir sob o efeito da maconha?

5) Como ter certeza de que os doces feitos de maconha não serão promovidos e vendidos a crianças e adolescentes?

É tudo muito mais complexo do que dizer – então tá liberado, agora todo mundo pode ficar doidão. Nova York vai decidir nos próximos meses se aceitará o uso da maconha para fins medicinais. É interessante notar, pelos artigos em jornais e revistas, que o tema há muito deixou de ser tabu.

Palmas para o Uruguai, que entendeu que a guerra de repressão às drogas foi perdida. A exemplo dos especialistas que advogam pela legalização, o governo uruguaio concluiu que a única forma de acabar com a violência gerada pelo tráfico seria oficializar e regular o uso da maconha. Enquanto a liberação não acontece por aqui, reproduzo o comentário de um dos leitores do New York Times sobre o artigo com Kleiman: “A proibição não funcionou com o álcool, não funciona com sexo e não funciona com drogas”. Diante da ineficácia do combate convencional, a saída poderia ser legalizar a maconha, regular a indústria, receber impostos com a venda e investir o dinheiro em educação? As campanhas hoje promovidas contra o tabaco e o álcool poderiam ser ampliadas para alertar os jovens sobre os malefícios provocados por drogas pesadas.

O que você acha?

Via:  Coluna Ruth Aquino Época