Não há números concretos sobre a quantidade de comestíveis de maconha que estão sendo fornecidos entre os Estados, mas os departamentos de polícia de várias jurisdições onde a venda não é legalizada relataram o confisco de quantidades cada vez maiores no ano passado. As informações são do The New York Times, via Uol

Depois de quase 20 anos no cargo, Jim Jeffries, chefe de polícia de LaFollette, Tennessee, já viu sua quota de apreensões de maconha – flores verdes secas escondidas em porta-malas ou debaixo de bancos de carros, muitas vezes duplamente ensacadas para abafar o cheiro característico.

Mas hoje em dia, Jeffries anda em busca de algo inesperado: pirulitos e marshmallows.

Recentemente seus funcionários pararam uma Chevy Blazer dirigida por um casal com três filhos no carro. No interior, os policiais encontraram 11 quilos de cookies com maconha e balas pequenas em forma de bonecos de gengibre, além de um balde de manteiga de maconha de aroma pungente, perfeita para fabricar mais doces.

Os sacos de marshmallows Kraft pareciam inocentes o bastante. Mas uma seringa para carnes também foi encontrada no carro. Depois de pesquisar na internet, Jeffries percebeu que os marshmallows provavelmente tinham sido infundidos com a manteiga de maconha e depois selados em suas embalagens.

“Esta é a primeira vez que vimos manteiga maconha ou qualquer um destes doces contendo maconha aqui no condado”, disse Jeffries. “Esperamos que seja a última.”

Isso parece cada vez mais improvável. Por todo o país, a polícia, há muito acostumada a confiscar maconha ensacada para fumar, está agora enfrentando um aumento dos petiscos e confeitos com infusão de maconha que são transportados ilegalmente pelas fronteiras estaduais para serem revendidos.

Os comestíveis de maconha, como são chamados, podem ser contrabandeados de forma bem mais fácil do que a erva: eles podem se parecer com balas ou biscoitos caseiros, e normalmente não têm um cheiro denunciador. E poucos policiais estão treinados a pensar em ursinhos de goma, balas de hortelã ou bebidas fluorescentes como drogas em potencial.

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Na Pontinha ~ Se mantido na embalagem original (com informações no rótulo) e fora do alcance das crianças não há motivos para temer, afinal isso também é feito com medicamentos, produtos de limpeza e o que mais apresentar riscos aos pequenos.

Alguns especialistas temem que a maconha comestível contrabandeada seja atraente para muitos consumidores, principalmente os adolescentes, que não estão preparados para o efeito enganosamente lento da ingestão. Novatos impacientes podem facilmente comer muito e muito rápido, sofrendo ataques de ansiedade e sintomas semelhantes à psicose. Já existem casos de crianças que comeram doces com maconha deixados a seu alcance.

Muitos vivem em Estados onde não houve nenhuma campanha pública de educação sobre o consumo responsável da maconha.

“Os cidadãos de Estados onde a maconha não é legalizada têm bem menos chances de receber essas mensagens, então os riscos provavelmente são maiores”, diz Robert J. MacCoun, professor de Direito na Universidade de Stanford que recentemente foi coautor de um editorial no The New England Journal of Medicine recomendando uma regulação mais rígida dos comestíveis de maconha.

Não há números concretos sobre a quantidade de comestíveis de maconha que estão sendo traficados entre os Estados, mas os departamentos de polícia de várias jurisdições onde a venda não é legalizada relataram o confisco de quantidades cada vez maiores no ano passado. As quantidades sugerem que os produtos estão suprindo uma demanda crescente, dizem oficiais.

Em fevereiro, policiais do Missouri confiscaram 180 quilos de chocolate de maconha industrializado, incluindo barras de Liquid Gold, escondidas em caixas dentro de um Infiniti QX60. O motorista foi preso por suspeita de porte de substância controlada para fins de distribuição.

Em Nova Jersey, que tem farmácias de maconha medicinal onde os produtos comestíveis não podem ser vendidos, a polícia do Estado apreendeu no mês passado 36 kg de doces caseiros de maconha no carro de um homem de Brooklyn. Em julho, o Departamento de Narcóticos de Drogas Perigosas de Oklahoma confiscou cerca de 18 quilos de produtos industrializados de maconha em uma apreensão, entre eles balas mastigáveis Cheeba Chews e garrafas de limonada com maconha.

“Não há dúvida de que existe um mercado crescente para os produtos comestíveis de maconha”, disse Mark Woodward, porta-voz do departamento de Oklahoma.

Em Estados onde a maconha continua sendo ilegal, alguns empresários começaram a preparar grandes lotes de produtos comestíveis de maconha para a venda. Em fevereiro, uma padaria ilegal que produzia brownies e cookies de maconha em um forno de tamanho industrial foi fechada em Warren County, Ohio.

A popularidade dos comestíveis de maconha pegou muitos funcionários de saúde de surpresa. Os comestíveis de maconha decolaram em 2014, o primeiro ano da legalização da venda para uso recreativo no Colorado, quando quase 5 milhões de itens individuais foram vendidos a pacientes e usuários adultos.

A demanda no Colorado e no Estado de Washington gerou uma variedade impressionante de petiscos e doces, desde barras veganas sem açúcar até barrinhas de chocolate branco com hortelã da Dixie Edibles.

Hoje, consumidores maiores de 21 anos podem comprar comestíveis de maconha legalmente nesses dois Estados; logo os adultos do Oregon e Alaska se juntarão a eles. Os comestíveis de maconha estão disponíveis para os usuários medicinais em pelo menos meia dúzia dos 23 Estados que têm programas de maconha medicinal.

Os comestíveis fazem sentido para os empresários de maconha. No passado, vendia-se as flores da planta, e o resto costumava ser descartado. Mas com uma máquina de extração, os fabricantes de produtos comestíveis podem usar a planta inteira.

“Em um mundo em que o THC se barateia, você quer diferenciar o seu produto do produto dos outros de uma forma que permita uma maior margem de lucro”, disse Jonathan Caulkins, coautor de “Marijuana Legalization” [“Legalização da Maconha”], que estudou o mercado negro da cocaína e da maconha. “Os comestíveis oferecem algumas oportunidades para isso.”

Os compradores podem não perceber que os efeitos psicoativos de comer maconha, que se devem em grande parte a uma substância química chamada tetrahidrocanabinol, ou THC, são muito mais imprevisíveis do que ao fumar a droga. Um comestível pode levar de uma a três horas para produzir seu efeito máximo, enquanto o fumo leva poucos minutos. Consumidores inexperientes podem facilmente comer demais, ficando seriamente debilitados.

Além disso, os efeitos do consumo podem variar drasticamente para cada pessoa de um dia para o outro, dependendo do que mais está no estômago, diz Kari L. Franson, professora associada de farmácia clínica na Universidade de Colorado. “Compare isso ao tabagismo – em poucos minutos você tem o efeito máximo”, disse ela. “É muito mais fácil de controlar.”

Até o ano passado, o sargento Jerry King, que trabalha para uma força-tarefa antidrogas no Alabama, nunca tinha visto comestíveis de maconha no correio. Em fevereiro, os inspetores postais encontraram um pacote, e a força-tarefa apreendeu cerca de 40 kg de maconha para fumar e 50 pacotes de doces de maconha.

Tradutora: Eloise De Vylder / Uol