No último sábado, 26 de outubro de 2013, como membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, fui à Unidade de Polícia Pacificadora de Manguinhos, a fim de verificar como ocorreu o assassinato de um jovem na região.

Sabia do fato apenas pelos jornais dessa mídia oficial de mercado questionada pelos movimentos da multidão. Logo percebi algo estranho, pois as pessoas que nos receberam estavam preocupadas com a polícia e com o tráfico. Se eram inimigos, como temiam os supostamente dois lados contrários? Entendi que havia medo por conta da ligação entre tráfico e policiais. Passando pelos becos, me deparei com algumas igrejas evangélicas. O oficial militar, inclusive, nos recebeu falando de sua fé, e de lei, que é bom, nada.

Lembrei imediatamente da perseguição sofrida pelo Candomblé e pela Umbanda, e ainda pelos bailes funks. Ninguém fez qualquer pronunciamento a favor da polícia contra a morte brutal do jovem sob tortura. A cultura negra vem sendo perseguida, como ocorreu no século XIX no Brasil, e isso é inaceitável em pleno século XXI.

Caminhando pelas ruas da favela, percebi que alguns jovens usavam modem. Indaguei se a internet estava espalhada pela região e alguns responderam que, com poucos recursos, a rede funcionava muito bem. Como tudo pode ser filmado, editado, publicado no youtube e divulgado no facebook, estas são importantes armas contra toda essa arbitrariedade.

Sem saber muito bem o que estava acontecendo, percebi que todos tinham medo da grande aliança entre polícia, tráfico e religião. Nossa presença teve grande importância, pois todos monitoraram nossa Comissão. Ainda fomos aos dois containers da UPP e apresentamos nossa missão aos oficiais.

Recordando que nossa constituição repudia o preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, essa mistura de polícia, tráfico e religião é muito preocupante para o futuro da democracia neste país.