Por Renato Cinco e Marcelo Yuka

A maconha tem como principal função aliviar dores e desconfortos causados pela enfermidade

O uso medicinal da maconha não é uma descoberta da ciência moderna. A cannabis aparece como medicamento no Pen-Ts’ao Ching, considerada a primeira farmacopeia conhecida do mundo, em 2.723 a.C. Nela é descrito o efeito analgésico, anticonvulsivante e tranquilizante desta erva.

No fim do século XIX a articulação proibicionista de setores puritanos dos Estados Unidos iniciou um processo de demonização do uso da maconha. A ação resultou nas primeiras leis proibicionistas na década de 30 do século 20.

Em 1961, a Convenção Única de Entorpecentes da ONU classificou a maconha na lista de drogas mais perigosas e sem nenhum valor medicinal. Mesmo com a limitação para realização de estudos, a comunidade científica conseguiu publicar pesquisas apontando o sucesso de tratamento com a maconha em doenças como câncer, Aids e glaucoma.

Nas doenças citadas acima, a maconha tem como principal função aliviar dores e desconfortos causados pela enfermidade. Para pacientes com câncer, seu uso contribui para amenizar as dores e náuseas da quimioterapia. No caso da Aids o efeito mais importante é o de estimular o apetite. No tratamento do glaucoma, o THC, princípio ativo da cannabis, ajuda a controlar a pressão intraocular.

Em 1996, o estado da Califórnia aprovou por meio de plebiscito a regulamentação do uso medicinal da maconha. Hoje, 18 estados americanos têm leis semelhantes. O mesmo acontece em países como Canadá, Israel, Republica Tcheca e Espanha. O Uruguai, nosso vizinho, está prestes a legalizar o uso recreativo.

Na maioria dos locais onde o uso medicinal da maconha é permitido, o paciente pode adquirir a cannabis de duas formas. A mais comum é comprando a erva em farmácias autorizadas (nos Estados Unidos são chamadas de dispensários) ou plantando em casa uma quantidade de pés que respeite a legislação.

Este cenário de quase legalização pode ser surpreendente para o brasileiro acostumado com o modelo proibicionista. Lá, as pessoas não usam armas ou controlam territórios para fazer o comércio de maconha. Produtores e varejistas estão inseridos na economia formal das cidades, pagam impostos e ofertam um produto que passa por um rígido controle de qualidade, como acontece com qualquer medicamento tradicional.

Aqui no Brasil a guerra às drogas é uma guerra aos pobres. Os filhos do pedreiro Amarildo perderam o pai, espancado até a morte pela polícia, porque a Polícia Militar suspeitava que ele tivesse envolvimento com o tráfico de drogas da Rocinha. Quantos já morreram e quantos ainda morrerão vítimas da criminalização da pobreza? A droga aqui é liberada, mas apenas para os mais ricos.

Via O Globo