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“O que desprotege a pessoa é comprar um tipo de droga quando na verdade é um veneno. Todo esse lixo é de responsabilidade do Estado”.

A afirmação foi feita pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em conversa com a CBDD. O cientista afirmou que não existe razão cientifica que justifique todos esses males que são vinculados ao uso da maconha e encara com estranheza o silêncio do Supremo Tribunal de Justiça sobre o tema.

Para ele, “as pessoas têm o direito de saber o que estão consumindo, da mesma forma que sabem o que compram no supermercado”. O grande problema, apontado pelo pesquisador, é que no Brasil o debate é desinformado e hipócrita. Boa parte dos médicos aponta que o problema da maconha é a combustão de celulose, o que também ocorre com o tabaco. “Estudos comprovam que existe mais câncer associado ao uso do cigarro do que com a maconha, pois nela existem muitas substâncias antitumorais”, explicou.

Reportagem produzida pela Folha de S. Paulo mostrou que o cigarro eletrônico seria uma alternativa para a redução no número de câncer advento do ato de fumar. A venda no Brasil é proibida desde 2009, mas Sidarta indica que esse produto poderia reduzir em até mil vezes a inalação de substâncias tóxicas e que também poderia ser utilizado para a maconha. “Eles explicam que querem que as pessoas parem de fumar e não incentivar, mas esse é um argumento paternalista que esconde conflitos de interesse.”

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De acordo com o neurocientista, qualquer excesso em relação ao consumo de drogas é prejudicial e a regulamentação do seu uso possibilitaria um maior controle sobre o que está sendo produzido e quais pessoas podem consumir. Ele destaca que o efeito de uma droga depende de três aspectos: a própria droga, o corpo que recebe a substância e o contexto social.

“A proibição agrava os três eixos”. Isso acontece por que a pessoa não sabe a dose e os contaminantes que está ingerindo ou se está em um grupo de risco, além de gerar uma paranóia social sobre os efeitos das drogas. Sidarta identificou quatro grupos de risco para a maconha, que são parecidos com os do álcool.

São eles: pessoas com tendência a psicose; lactantes e gestantes, pois a biologia molecular mostra um importante papel dos cannabinoides na formação do embrião e sistema nervoso; depressivos ou com tendência à depressão; e crianças e jovens.

Sobre o primeiro, Sidarta desmente o mito impetrado pelos proibicionistas e informas que essas pessoas não devem fazer uso de qualquer substância psicoativa. “Eles dizem que todo usuário de maconha vira um psicótico e isso é uma grande mentira”.

Ele comenta ainda o caso da menina Charlotte. A Americana de 6 anos faz uso de maconha medicinal para amenizar as crises de epilepsia. Ela chegava a ter mais de 300 surtos por dia.

Os grupos de risco

A troca de uma base, que vai gerar a alteração de um aminoácido, é suficiente para criar as características de um organismo. “Pessoas que tem variações na catecolmetiltransferase (enzima que degrada os neurotransmissores) são mais suscetíveis à cannabis. Assim como ocorre com outras substâncias. Isso não é especifico da maconha, mas de todas as drogas”.

Ele acrescentou que a regulamentação facilitaria as pesquisas para reconhecimento desses grupos e possibilitaria o uso mais amplo da erva. Composta por mais de 70 cannabinoides, a Maconha é antitumoral, complementa o tratamento da quimioterapia, abre o apetite, relaxa e traz sono.

“Ela foi proibida por questões culturais e econômicas, e hoje continua proibida por questões sociais, econômicas e políticas”, disse. Ele acrescenta que a ciência já tem muita clareza sobre o assunto e que um marco disso foi a retratação de Sanjay Gupta, colunista da rede americana CNN. Há 10 anos, o médico havia produzido um especial contra a maconha medicinal e este ano assumiu estar equivocado em suas conclusões. “Isso é fantástico”.

Por Flávia Ferreira – CBDD
Via Comissão Brasileira Sobre Drogas e Democracia

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