Nasci no meio da luta contra o regime militar. Meu pai foi cassado pelo AI -1, em 1964. Minha tia Verinha, Vera Sílvia Magalhães, irmã da minha mãe, em 1969, foi a única mulher que participou do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. Nasci no seio de uma família que lutou contra a sanguinária ditadura militar brasileira. Meus heróis faziam parte de minha própria história. Mas não podia dizer nada. No colégio, embora soubesse de tudo, tinha de ficar calado. Banida do Brasil, na Alemanha, tia Verinha estava clandestina e usava Elisa como nome falso. Diz minha família que eu nunca errava: em casa, chamava de tia Verinha e, na rua, de tia Elisa. Sei guardar segredo, pois fui treinado, desde pequeno conheço a movimentação das ideias e dos espíritos das ditaduras. Como esta que vivemos nas manifestações pela avenidas do Rio de Janeiro e que os pobres sempre viveram nos morros da cidade.

Cid Benjamin e Vera Sílvia no dia em que foram libertados em Junho de 1970

Pensava em gravar um depoimento com a tia Verinha mas, depois de sua morte, a única testemunha direta de tal fato era Cid Benjamin, um dos maiores guerrilheiros da História do Brasil. Vivia perturbando o Cid para gravar essa história na internet, com esses fabulosos e novos instrumentos de comunicação. Falava pra ele acerca de um livro que dizia que eles fizeram o levantamento levando um cachorro para passear, e isso precisava ser esclarecido.

Além de encontrá-lo na Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, voltei a me reaproximar do Cid Benjamin depois que me desfiliei do PT e fui para o PSOL, como Cid havia feito bem antes de mim. A política do amor à vida nos colocou no mesmo lugar. Na manifestação de 100 mil pessoas que tomou a avenida Rio Branco, em 18 de junho deste ano, que inclusive nos faz recordar a passeata dos 100 mil, em 26 de junho de 1968, uma pessoa muito querida de Cid foi presa. Por conta de minha idade, só pude ir à deste ano, mas Cid estava presente nas duas. Na segunda, fomos parar na 5ª Delegacia Policial. Enquanto Cid foi para ajudar uma pessoa muito próxima, eu estava lá em missão, como advogado. Conseguimos a liberdade de quase todos, inclusive a da ente querida de Cid, que hoje é minha grande amiga.

Foi então que Cid me contou que lançaria um livro. Não perdi tempo e, mais uma vez, pedi para ele me colocar em seu relato. Para minha enorme felicidade, na sua obra imortal “GRACIAS A LA VIDA” , lançada ontem, dia 22/10/2013, em noite de autógrafos de enorme sucesso, além de ter me colocado na história, fui agraciado com a sensacional dedicatória: “André, você é personagem deste livro. Um abraço grande do Cid”.

cid benjamin Sequestrei embaixador
Cid Benjamin, autor do livro “Gracias a la vida – memórias de um militante”

Na página 107, Cid escreveu o seguinte: “ O levantamento das informações já tinha sido concluído por nós, do MR-8. Eu e Vera Sílvia costumávamos passar diante da casa do embaixador, às vezes acompanhados de um sobrinho dela, na época com três anos, no carrinho de bebê. Ele é hoje o advogado André Barros, um destacado integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ.”

Muito obrigado, Cid Benjamin! Para mim, assim como a minha tia Verinha e toda a geração de 68 que fez a luta armada contra a ditadura sanguinária e torturadora brasileira, você sempre foi um herói. Assinado: “o guerrilheiro mais novo da História do Brasil”.

Saiba mais sobre o livro “Gracias a la vida

  • Paulo Fatigati

    André, fico orgulhoso e feliz demais quando nossos companheiros, que fizeram uma parte importante da história recente do nosso pais, se dedicam a contar aqueles acontecimentos com nossa visão, nossa perspectiva.
    Vou chamar o Cid pra lançar o livro aqui em Maricá e te convidar pra discutir o livro naquela oportunidade!
    Estou ficando velho(não tanto como o Cid.) e, como na música, qualquer beijo de novela está me fazendo chorar.
    Porém temos que contar nossas histórias!
    Um beijo
    Fatigati

  • Pedro Martins

    Caro André,

    Fico impressionado que, além de fazer parte do grupo que é contra a opressão contra o usuário, fez parte, por mais que não se desse muita conta na época, do principal momento da luta contra a opressão da liberdade do povo brasileiro;

    Na verdade não me surpreende. Tanta capacitação deveria vir de algum lugar!

    Parabéns pela história e pelas lutas!

    Abraços,
    Pedro

  • dossio

    que bom que saiu do pt tava demorando.. podia te entrado no pv mas psol ja ta di boua