“O legislativo decidiu, em 2006, que o uso medicinal da cannabis pode ser autorizado e regulado pelo Ministério da Saúde e a Anvisa, assim como é feito no caso da morfina. Agora é a população brasileira que dá seu sinal: estamos prontos para um mudança. Não é mais hora de pensar se o uso medicinal deve ser regulado, mas de começar a debater, usando como base dados científicos e respeitando o direito dos pacientes a receber tratamento digno e humano, como isso deverá ser feito.”

Será mesmo que o brasileiro é contra a maconha medicinal, como saiu nos jornais na última semana? Leia a reflexão de Ilona Szabo e Ana Paula Pellegrino, membros da Pense Livre, acerca das recentes pesquisas.

A maioria dos brasileiros é contra a venda da maconha para uso medicinal?

Por Ilona Szabó e Ana Paula Pellegrino

Parece que as grandes agências de pesquisas – e os jornais que replicam seus achados – já esqueceram de outubro. Tomados de surpresa, principalmente pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, inspiraram piadas na internet. Mesmo assegurando que seus números tem 99% de nível de confiança e 2% de margem de erro, algo que âncoras dos jornais da noite tanto faziam questão de repetir, erraram feio.

A recente notícia acerca da pesquisa sobre maconha medicinal, que está no topo de todos os rankings de artigos mais lidos nos jornais eletrônicos, igualmente erra de mão. São dois os principais erros, um na sua formulação e outro de interpretação.

Em primeiro lugar, há uma falta de clareza – intencional ou não – nas duas perguntas postas ao público. Pergunta-se, na mesma pesquisa, sobre a venda de maconha para uso medicinal e depois sobre a liberação de remédios derivados da droga. Qual a distinção? Em uma pergunta, fica implícita a possibilidade do uso in natura da Cannabis por pacientes. Na segunda, são chancelados apenas o uso de remédios manipulados, fabricados a base de substâncias extraídas da planta. Mas, para quem não é versado no tema, como certamente é o caso de algumas das 2162 pessoas entrevistados, isso ficou claro? Tanto não é claro que a chamada para a notícia joga com essa confusão comum: fala que brasileiros são contra a maconha medicinal – mas essa não foi a pergunta.

Além disso, os jornais que veicularam a notícia o fizeram com um ar pessimista – mas temos que discordar. Essa pesquisa, mesmo composta por perguntas não muito claras, mostra que temos um país dividido, onde antes tínhamos uma esmagadora maioria que ou era contrária ao uso medicinal de cannabis ou nem sabia que ele existia. Isso é sinal do avanço do debate e da disseminação de informação acerca da necessidade de regulação do uso medicinal da maconha, da quebra do tabu que gira em torno dessa droga e que tanto tem prejudicado os pacientes que precisam dela.

Estamos quase fechando 2014 com grandes vitórias para aqueles que ousam pensar diferente do paradigma de “guerra às drogas,” que até aqui pautou as políticas públicas brasileiras sobre o tema. 2015 abre-se com uma demanda clara: é preciso regular o uso medicinal da cannabis, já prevista na legislação brasileira no parágrafo único do segundo artigo da lei 11.343/2006.

O legislativo decidiu, em 2006, que o uso medicinal da cannabis pode ser autorizado e regulado pelo Ministério da Saúde e a Anvisa, assim como é feito no caso da morfina. Agora é a população brasileira que dá seu sinal: estamos prontos para uma mudança. Não é mais hora de pensar se o uso medicinal deve ser regulado, mas de começar a debater, usando como base dados científicos e respeitando o direito dos pacientes a receber tratamento digno e humano, como isso deverá ser feito.