Em entrevista exclusiva, Vidal fala um pouco sobre a AMEMM (Associação Multidisciplinar de Estudos sobre Maconha Medicinal), maconha medicinal, política de drogas, tratamento para pacientes e diversas outras questões sobre a erva. O antropólogo e ativista também comanda uma pesquisa para traçar o perfil dos brasileiros que precisam dos usos medicinais da planta.

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AMEMM – Associação Multidisciplinar de Estudos Sobre Maconha Medicinal

A Associação Multidisciplinar de Estudos sobre Maconha Medicinal (AMEMM) está promovendo um levantamento on-line para traçar o perfil do uso medicinal da maconha no Brasil. A associação foi fundada em dezembro do ano passado e tem como objetivo a produção e difusão de informação sobre o tema, além de auxiliar os pacientes a terem acesso legal à cannabis e medicamentos derivados. Atualmente, ela está trabalhando na sua formalização e estruturação para poder intensificar os seus trabalhos e melhorar o atendimento aos pacientes. O SMKBD conversou com antropólogo e ativista Sergio Vidal, que atualmente é presidente da instituição, para saber um pouco mais sobre o trabalho do grupo, seus objetos e planos para o futuro.

Para responder o questionário visite o site da AMEMM (amemm.org/?page_id=20) ou siga sua página no Facebook para saber mais: https:https://www.facebook.com/amemaconhamedicinal. É preciso estar logado a uma conta Google para responder as perguntas

SmokeBud: Você é ativista pela legalização da maconha há muitos anos e tem uma história forte dentro do movimento. Pode nos contar um pouco dessa história e de como surgiu a ideia de fundar uma associação que trata exclusivamente da questão medicinal da erva?

Sergio Vidal: Eu sempre pensei sobre a ideia de fazer uma associação. Sou ativista há muitos anos, trabalhei no primeiro fórum sobre cultivo do Brasil desde seu início, como muitos outros ativistas na época fizeram e depois também se afastaram. Conto mais detalhes da minha história na biografia em meu blog. Em 2006, quando foi aprovada a atual Lei que prevê que o governo pode autorizar o plantio para fins medicinais, insisti com o dono do fórum para que juntássemos o maior número de pessoas interessadas e fundássemos uma associação focada na questão medicinal ou na questão da redução de danos, mas que tivesse como objetivo principal solicitar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária a autorização para que pudéssemos cultivar para os pacientes. Na época, cheguei inclusive a redigir um estatuto para a associação, mas a ideia não foi levada à frente por nenhum dos envolvidos, nem por nenhuma outra pessoa com a qual falamos. O único grupo que se formalizou até hoje como associação canábica é o Instituto da Cannabis (ICA), em Santa Catarina, que recentemente conseguiu obter seu CNPJ.

Com o tempo, em cada cidade a militância tomou um rumo específico e cada ativista também traçou diferentes trajetórias, tanto na forma, quanto no conteúdo e nos focos de atuação dentro do movimento antiproibicionista como um todo. Aos poucos, tentei focar apenas o trabalho com ativistas em Salvador, mas sempre mantendo o diálogo com o fórum e com outros grupos de ativistas em todo o país. Em 2010, me afastei definitivamente do fórum e comecei a focar meu ativismo de forma mais individual, transitando por diferente grupos, mas sem formalizar a participação em nenhum deles.

“É cada vez mais crescente a clareza de que o acesso à maconha medicinal deve ser não apenas facilitado para os que podem pagar, mas também para os que não têm dinheiro, através do Sistema Único de Saúde. Até por uma questão de estratégia para desonerar os gastos públicos o governo precisará regulamentar o cultivo caseiro para fins medicinais, pois muitos pacientes vão preferir cultivar em suas próprias casas. Isso será bom para eles e para o governo.”

Acredito que, como em todo mundo, somente as pessoas que sofrem com algum sintoma ou doença é que sentem de fato o quanto é urgente que a maconha esteja em suas vidas. Desde 2004 que sofro com dores musculares, que a cada ano atingem uma área maior e se tornam mais intensas e isso é uma das coisas que me estimularam a querer estudar o uso medicinal. Mas somente em 2013, quando minha mãe teve câncer de mama e eu pude ver e acompanhar um pouco seu sofrimento e sentir o quanto a cannabis e a falta de pesquisas e usos medicinais diversificados da planta fazem realmente falta. Em 2014, quando aumentou o número de pessoas com alguma doença, ou com parentes doentes lutando especificamente pela questão medicinal, o cenário ficou muito mais aberto para debater o tema, tudo se encaixou me mostrando que era hora de colocar em prática a antiga ideia de focar nesse tema.

Então eu procurei dialogar com o máximo de pessoas sérias que tinham uma sintonia de ideias bem próxima da minha. Não bastava ser ativista e pesquisador do tema, tinha que compreender a urgência de uma instituição que focasse na questão medicinal e científica desde o princípio e, especialmente, estar disposto a trabalhar sem perspectiva de quando vamos poder ser remunerados por isso. Então formamos um grupo pequeno, com cerca de 10 pessoas, entre pessoas da área jurídica, das ciências humanas e da saúde e fundamos a AMEMM em dezembro do ano passado.

SMKBD: E hoje em dia, qual tem sido o foco da Associação?

S.Vidal.: No Brasil, tudo é muito difícil e temos feito o possível para trabalhar sem formalização. O foco principal tem sido justamente criar uma estrutura que possa melhora o acolhimento dos pacientes, conseguir uma boa sede e formalizar a instituição. Acabamos de conseguir um espaço para ser nossa sede provisória e agora poderemos solicitar a formalização burocrática e obter um CNPJ, com isso teremos muito mais poder de luta e capacidade para trabalhar. Por enquanto nossa atuação tem sido bastante limitada, mas mesmo assim temos conseguido ajudar algumas pessoas de diferentes maneiras. Nossa principal ação no momento é o levantamento on-line para conseguir conhecer melhor as pessoas que fazem uso medicinal da maconha ou que poderiam se beneficiar dos medicamentos à base da erva.

SMKBD: O número de pacientes que procuram vocês é grande? O que a AMEMM tem feito por eles?

S.Vidal.: A demanda é crescente. Todos os dias pessoas nos enviam as mais variadas mensagens de pacientes, ou familiares de pacientes, com diferentes doenças e sintomas que poderiam se beneficiar do uso medicinal da erva, que querem fazer uso e não têm acesso a medicamentos por que ainda é muito restrito no Brasil. Cada caso é analisado e damos um encaminhamento específico de acordo com a situação. Alguns precisam de CBD – nesses casos já há um maior facilidade porque mesmo sendo caro, há empresas produzindo e exportando para o Brasil. Nosso trabalho então é orientar como a pessoa pode fazer o processo de conseguir autorização para comprar os produtos com CBD e ajudá-la nessa tarefa.

O maior problema é quando o paciente precisa de THC, que não pode ser exportado para o Brasil, ou quando é uma doença de avanço rápido, como um câncer. Há alguns casos desse tipo e a sensação de impotência é angustiante, por saber que, por mais que corramos, muitas vezes não conseguiremos medicar o paciente porque a burocracia e a realidade objetiva que impede de ter maconha medicinal disponível no mercado. Em todos os casos ainda estamos na etapa inicial do auxílio aos pacientes. Em muitos casos temos encaminhando para outras associações existentes no país, por serem pacientes que estão geograficamente mais próximos dessas instituições. As mais conhecidas que focam na questão medicinal são a ABRACANNABIS (Rio de Janeiro), a ABRACE (João Pessoa) e a AMA-ME (São Paulo).

“Eu não acredito que a indústria farmacêutica tenha interesse em fornecer o melhor pelo menor preço e também não confio no governo para assegurar a democratização do acesso aos medicamentos à base de maconha. Por isso acredito que não apenas a AMEMM, mas todas as instituições de pesquisa ou que defendem os direitos dos pacientes devem lutar para terem autorização de cultivo para os seus pacientes. Essa, na minha opinião, é a única maneira de assegurarmos um futuro com acesso amplo e irrestrito à medicamentos derivados de maconha”

SMKBD: Quais são os planos para o futuro?

S.Vidal.: Nós queremos ampliar e melhorar cada vez mais o atendimento aos pacientes e diversificar nossa forma de atuação. Hoje em dia já organizamos e participamos de eventos, realizamos orientação a pacientes e outras ações, mas queremos ampliar e intensificar esses trabalhos. Sonho o dia que teremos uma sede no qual poderemos receber todos os pacientes para diferentes tipos de atividades, com capacidade não apenas orientar os pacientes sobre onde comprar e como usar o medicamento, mas principalmente com estrutura para cultivar, produzir e fornecer o medicamento de alta qualidade para os associados a preço de custo.

SMKBD: Qual sua opinião sobre a legalização do cultivo caseiro?

S.Vidal.: Eu acho que o fato de eu ter lançado um livro guia de cultivo e de manter o trabalho educativo de publicar artigos respondendo dúvidas de leitores sobre cultivo já diz muito a respeito da minha opinião sobre o cultivo caseiro. Porém, gostaria de registrar minha posição política sobre o fato de que eu defendo que essa é a única maneira de acabar com o tráfico de drogas. Por mais que se regulamente o mercado da maconha, enquanto não se regulamentar o cultivo caseiro sempre haverá espaço para o tráfico. Isso falando em termos de uso recreativo.

Falando especificamente sobre o uso medicinal, temos visto diversas decisões que obrigam o governo a pagar pelo acesso ao medicamento. É cada vez mais crescente a clareza de que o acesso à maconha medicinal deve ser não apenas facilitado para os que podem pagar, mas também para os que não têm dinheiro, através do Sistema Único de Saúde. Até por uma questão de estratégia para desonerar os gastos públicos o governo precisará regulamentar o cultivo caseiro para fins medicinais, pois muitos pacientes vão preferir cultivar em suas próprias casas. Isso será bom para eles e para o governo.

Vidal Foto Divulgação Facebook
Livro guia de cultivo: Cannabis Medicinal – Foto Facebook

Mesmo em casos em que doença requeira doses altas de fitocanabinóides é possível cultivar, nem que seja apenas uma parte do que será usado no tratamento. Além disso, num cenário de regulamentação, muitos usuários não-medicinais poderiam fazer doações para serem usadas no tratamento de pacientes.

SMKBD: Você poderia deixar uma mensagem para nossos leitores e para todos que quiserem ajudar a AMEMM na sua missão?

S.Vidal.: Primeiro queria agradecer ao SmokeBud e a todos os blogs, coletivos, instituições e indivíduos que têm feito algo pela maconha medicinal, nem que seja ao menos falar sobre o tema, compartilhar notícias. Todo tipo de ajuda nesse momento social e político crítico é bem-vinda. Precisamos pressionar ao máximo os parlamentares, os governantes, o judiciário e a opinião pública, só assim haverão mudanças e poderemos viver num mundo onde nenhum paciente precise sofrer por não ter acesso a maconha medicinal.

Todos nós podemos fazer alguma coisa, pequena ou grande, não importa de que tamanho. O importante é que não fiquemos parados. Para os que desejam e podem ajudar a AMEMM eu só tenho a dizer que nos procurem. Visitem nosso site, preencham o questionário da pesquisa, enviem mensagem pelo formulário no site ou por nosso e-mail contatoamemm@gmail.com, ou ainda através da nossa página no Facebook.

Nesse momento o que mais precisamos é ajuda. Estamos apenas começando e há muito trabalho a ser feito. Toda ajuda é bem vinda. Mais uma vez obrigado a você, Dave, e a toda equipe do SMKBD por todo apoio que sempre tem me dado. Grande abraço!

Quem quiser conhecer mais sobre o trabalho do antropólogo e ativista Sergio Vidal, pode visitar seu blog (//sergio-vidal.blogspot.com.br) ou segui-lo nas redes sociais:

Facebook: https:https://www.facebook.com/sergiovidalmaconhamedicinal e https:https://www.facebook.com/cultura.medicinal
Twitter e Instagram: @ganjagurubrasil

 

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