Diversos ativistas, coletivos e entidades antiproibicionistas manifestam apoio ao coletivo que organizou a Copa Growroom, a seguir confira o manifesto via “O Tapa – Ativismo Canábico”.

SOMOS TODOS GROWROOM

Se ainda restava alguma dúvida, dois episódios recentes se encarregaram de desnudar o real motivo da guerra às drogas: não se trata de uma “cruzada moralista” para salvar o mundo do vício e preservar os valores da família, mas sim de um pretexto para permitir que poucos lucrem com um mercado milionário, ao mesmo tempo em que se mantém sob controle certas camadas da população – os indesejáveis.

O primeiro episódio já está um pouco esquecido, pois tanto a imprensa quanto a polícia se encarregaram de varrê-lo rapidamente para debaixo do tapete. Refiro-me aos 450 kg de pasta base de cocaína encontrados pela polícia federal no helicóptero de um conhecido senador mineiro, apadrinhado por outro político do mesmo estado ainda mais famoso, futuro candidato à presidência da República. Mais estranho do que a falta de interesse da grande mídia no caso foram as declarações do delegado responsável pelas investigações, que em poucos dias veio a público afirmar que não havia qualquer ligação entre o senador – dono do helicóptero – e a mercadoria que estava sendo transportada.

O segundo episódio também não chamou muito a atenção da mídia, mas mobilizou as forças policiais de Porto Alegre: quatro participantes da Copa Growroom foram identificados através do vídeo oficial do evento, e o delegado já afirmou que a conduta pode ser enquadrada como “tráfico, associação para o tráfico, posse e apologia de entorpecentes”. O delegado disse ainda, cheio de garbo: “Aqui, se aplica a lei da repressão. Não tem margem para discussão”.

Para quem não conhece, o Growroom é um coletivo de cultivadores de maconha que existe há 11 anos, cujo único objetivo é a troca de informações sobre o plantio da erva, auxiliando as pessoas que desejam cortar seus vínculos com os criminosos. E a Copa Growroom é uma celebração que reúne usuários de todo o país que cultivam sua própria planta. Nas palavras dos organizadores do evento, “o Growroom é um espaço de redução de danos para usuários de cannabis e uma plataforma de ativismo, convivência e troca de experiências. Defendemos o cultivo caseiro como alternativa segura e consciente ao mercado ilegal da cannabis, amparado pela atual política de drogas proibicionista. É expressamente proibido qualquer tipo de comércio da maconha na Copa Growroom. Afinal, trata-se de um evento lúdico que tem por finalidade reunir usuários de cannabis de todo o país, que cultivam a planta para fins pessoais.”

A contradição brutal que existe entre os dois episódios acima relatados evidencia que o objetivo da chamada “guerra às drogas” não é erradicar esta ou aquela substância, nem tampouco encarcerar os “barões do tráfico” e confiscar suas fortunas, mas sim prender quem está na base desta pirâmide, sejam os vendedores do varejo, sejam os usuários-cultivadores que ousam tentar enfraquecer este mercado. E olhando por este prisma não dá para negar que a estratégia está sendo bem sucedida: nos últimos oito anos (período de vigência da nova lei de drogas) o número de prisões por tráfico cresceu 282% e se tornou o campeão de encarceramentos no país, respondendo por 24% das prisões (dados oficiais do DEPEN – Departamento Penitenciário Nacional). A esmagadora maioria, porém, é de jovens, sem antecedentes criminais, pegos com quantidades de drogas inferiores a 100 gramas e que estavam desarmados no momento da prisão.

A guerra que está sendo travada, portanto, não é contra as drogas, mas sim contra certos segmentos sociais, tidos como indesejáveis e que precisam ser controlados. Assim foi com Richard Nixon, presidente estadunidense que inaugurou esta guerra na década de 70 como pretexto para perseguir hippies, pacifistas e ativistas do movimento negro que protestavam contra suas medidas conservadoras e moralistas; assim foi no Brasil do século XIX, pioneiro na proibição da maconha ao editar lei punindo o “pito do pango” dos “escravos e outras pessoas”. E assim é hoje em todos os lugares em que ainda se aposta nesta mesma estratégia falida e absurda.

Felizmente, nos últimos anos o proibicionismo vem sendo encurralado, e cada vez mais vão surgindo novas abordagens para as drogas, especialmente para a maconha, que pode e deve ser tratada de forma diferente das demais. Afinal, é uma planta de cultivo relativamente fácil, acessível a todos, e cujos efeitos não são mais nocivos para a saúde do que o álcool e o cigarro. Isso sem falar que o chamado “uso recreativo” representa apenas uma de tantas possibilidades desta erva, e sem dúvidas a menos importante. Já sabemos que a maconha tem um enorme potencial no tratamento de diversas doenças, e que a sua fibra pode revolucionar a indústria, pois é matéria-prima para a confecção de tecidos, papel, concreto, tijolos, cordas e tantas outras coisas, todas mais resistentes e mais baratas do que aquelas que temos à nossa disposição hoje. E sabemos disso tudo num ambiente em que as pesquisas científicas são proibidas na maioria dos lugares, a exemplo do Brasil.

Dentro deste contexto, o papel desempenhado pelo Growroom na última década tem sido fundamental para difundir a técnica do autocultivo, única forma de ter acesso à maconha sem se arriscar no mercado ilegal, e única maneira de controlar a qualidade daquilo que se fuma. Por isso, é inadmissível que pessoas que não representam nenhum risco para a sociedade sejam presas e condenadas a penas maiores do que a de estupradores, enquanto políticos envolvidos com quantidades assustadoras de cocaína são defendidos e inocentados por aqueles que deveriam investigá-los e puni-los.

Somos todos Growroom.

Via O Tapa*

* O Tapa é um instrumento de canalização de idéias e informações, que visa qualificar o debate sobre a legalização da canábis. Não é nosso objetivo fazer apologia de crime ou qualquer tipo de incitação à prática de crime, mas apenas criar um fluxo de informações sobre a causa da legalização, com apoio na decisão do STF na ADPF 187, julgada em junho de 2011, relatada pelo Ministro Celso de Mello