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Recentemente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi a uma festa na casa de uma de suas netas, que tem 27 anos. A dona da casa se aproximou do avô e discretamente apontou uma outra jovem, de sua idade, que era uma das convidadas.

“Olha, vô, tá vendo aquela amiga minha ali?”
FHC fez que sim com a cabeça.

“Ela me disse que o maior prazer da vida dela seria fumar um baseado com você.”

Quem contou o causo foi o próprio ex-presidente, para gargalhada geral da plateia formada por jornalistas e executivos da Abril. Foi o momento mais engraçado do debate entre FHC e o jurista Pedro Abramovay, que promovi e mediei na semana passada, dentro do ciclo Diálogos Culturais do Meio Dia, da Abril.

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Essa anedota, e o fato de que todo mundo na plateia riu tanto dela, ilustram bem o quanto o debate sobre drogas é uma questão geracional. Por isso, optamos por fazer um debate transgeracional. Abramovay tem 33 anos, não muito mais do que as netas de FHC. Já o ex-presidente tem 82, não gosta de maconha e garante que não tem nenhum interesse em realizar o sonho da amiga de sua neta.

A Guerra contra as Drogas foi uma utopia inventada pela geração de FHC para proteger a geração de sua neta e a de Abramovay. Deu absurdamente errado. Por causa da proibição ultra-radical, hoje há mais usuários de drogas do que nunca, e as drogas ficaram mais perigosas do que em qualquer outra época, sem falar na terrível violência que foi gerada. Em vez de proteger os jovens, a Guerra acabou machucando-os. Essa política repressiva foi inventada para evitar que adolescentes fumassem maconha.

Mas a consequência dessa guerra é que hoje as crianças estão fumando crack. Essa história, bem menos engraçada, foi Abramovay que contou, durante o mesmo debate. Ele relatou que, no tempo em que foi Secretário Nacional de Justiça no governo Lula, conversava muito com a equipe da Polícia Federal. Numa dessas conversas, um dos diretores da PF contou sua versão de como o crack chegou ao país. Segundo ele, o que aconteceu foi que as forças de segurança do Brasil, tentando frear o tráfico de cocaína, proibiram a exportação para a Bolívia de produtos químicos brasileiros usados no refino de pó. A intenção era boa, mas o tiro saiu pela culatra. Sem os precursores químicos, os traficantes bolivianos teriam passado a exportar pasta-base para o Brasil, onde começou-se a experimentar novas formas de processar a droga. Até desenvolverem algo ainda mais lucrativo do que cocaína refinada: o crack.

A história da Guerra contra as Drogas está cheia de causos como esse – gente bem intencionada inventando proibições para proteger os jovens e evitar que eles tenham acesso a drogas. E, como consequência, traficantes se aproveitando dessas proibições para lucrar ainda mais atendendo à demanda humana por drogas, que sempre existiu e sempre existirá.

O próprio FHC fez esse papel. Quando foi presidente da República, aumentou a repressão ao tráfico, endureceu as leis e recusou qualquer tentativa de criar políticas mais focadas em saúde e educação do que em repressão. Hoje ele admite que estava errado. “Eu não sabia muita coisa”, reconhece. Ele mudou de ideia. Muita gente de sua geração, à esquerda e à direita, está mudando também. Não porque eles gostem de maconha, ou porque sejam a favor das drogas – mas porque estão se dando conta de que a melhor maneira de proteger os jovens dos perigos reais das drogas é com regulação moderada e foco na saúde e na educação.

Pedro Abramovay agora está de malas prontas para Washington, onde irá dirigir o escritório latino-americano da Open Society Foundation, uma organização criada pelo bilionário George Soros com o objetivo de criar sociedades mais abertas e democráticas. A OSF é hoje o principal financiador global de pesquisa e ativismo contra a Guerra às Drogas, e Abramovay deve criar um escritório no Brasil muito em breve. A Comissão Global de Política sobre Drogas, órgão do qual FHC é presidente, é uma das beneficiárias da fundação de Soros.

À medida em que a geração de FHC, que inventou essa bem-intencionada e mal-sucedida utopia, vai deixando o poder e sendo substituída pela geração de Abramovay, é de se esperar que a fracassada Guerra Contra as Drogas vá lentamente acabando. É de se esperar também que algumas pessoas menos bem humoradas e cabeça-aberta do que FHC resistam ferozmente a essa mudança. Afinal, isso é mais do que uma mudança política: é uma grande transição cultural, que está acontecendo no Brasil todo, no mundo todo. Até mesmo nas festas de família.

Por: Denis Russo Burgierman
Fonte : Super Interessante

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