A 6ª Audiência Publica sobre a proposta de sugestão popular nº 8/2014, que debate a regulamentação do uso recreativo, medicinal e industrial da maconha, encerrou a série de debates com direito a chilique proibicionista e presença importante de ativistas em um evento que durou mais de 7 horas.

Por Celso Junior e Dave Coutinho

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André Kiepper – Foto por Contínua Pessoa

No início do ano André Kiepper, analista de gestão em saúde da FioCruz, apresentou uma proposta para a regulamentação do uso recreativo, medicinal e industrial da maconha, através de uma ferramenta on line de participação social no Senado, o e-cidadania. Kiepper com o apoio dos coletivos, mídias independentes, especialistas e algumas personalidades como O Planet Hemp e o ator Gregório Duvivier, conseguiu atingir a meta com mais de 20 mil pessoas em 4 dias.  Após chegar às mãos do Senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que escolhido para ser relator da proposta,  aceitou “enfrentar a batalha” focado em quatro questões: a regulação aumenta o consumo? reduz a violência? possuí finalidades terapêuticas? E uma de cunho moral; se a sociedade está preparada?

Uma das razões pelas quais Cristovam não recusou o debate, foi após ter contado a sua esposa, a Senhora Gladys, e a mesma ter dito que ele não tinha direito de ficar na história como quem fugiu de um tema que a juventude precisava que fosse discutido, assim disse o relator em entrevista a Agência Senado, logo após assumir a relatoria da #SUG8.

[quote_center]”Temos muitas questões a analisar, só não temos direito de dizer que isso é irrelevante” – Senador Cristovam Buarque[/quote_center]

Após apresentar o estudo 765 no qual sua Consultoria enumera 11 pontos positivos na regulamentação da maconha, como o aumento de receitas tributárias, a redução da evasão de divisas e a melhoria da qualidade do produto. Cristovam anunciou a realização de 8 audiências, entretanto pelo que tudo indica o sexto debate (13/10) foi o último antes do senador encaminhar seu parecer à liderança da Comissão de Direitos Humanos (CDH).

Na série de audiências a CDH ouviu autoridades, lideranças sociais, especialistas e intelectuais do Brasil e do mundo, que em grande maioria reconheceram a falência da “Guerra às Drogas” que nunca foi ou será eficaz algum dia, já que na realidade a guerra é contra os menos favorecidos, jovens negros e a grande maioria da classe baixa.

No ciclo de debates da SUG 8, avançou a percepção de urgência na liberação da maconha para fins medicinais. O uso terapêutico de substâncias, não apenas o canabidiol (CBD), mas todas as propriedades da planta tem se mostrado eficiente em pacientes que sofrem de condições como epilepsia grave, esclerose múltipla, esquizofrenia e mal de Parkinson. Mas nos debates durante as AP’s pouco se avançou sobre o uso recreativo e nenhum no uso industrial.

Aperte e confira os destaques das primeiras audiências da SUG 8
A 6ª e última Audiência Pública deixou o Senado mais verde

Após a quinta audiência pública, diversos ativistas resolveram saltar de suas zonas de conforto articulando-se das melhores formas e partiram rumo a Capital Federal. Desde sábado (11) Brasília começou a ficar mais verde, com a chegada de representantes de diversos coletivos, ativistas, especialistas, advogados, pais de crianças, pacientes e defensores da #SUG8, vindos de diversas partes do país. A Casa das Redes / FdE – DF abriu suas portas e hospedou de coração ativistas de todo o país – Um Salve especial pela atenção e hospedagem garantida pela galera organizadora da Casa.

SUG 8 Casa Das Redes geral
A Casa das Redes é parceira da causa e recebeu várias pessoas que foram à Capital Federal para fortalecer a #SUG8

Logo, em virtude dos resultados das audiências anteriores e em relação a presença massiva do proibicionismo, rapidamente após a chegada na Casa, foi organizado uma roda cannábica. Ativistas do Brasil inteiro se reuniram e através de uma transmissão ao vivo, pela PosTV, foi debatido alguns pontos sobre o andamento da proposta e os possíveis passos a serem tomados no dia da audiência, como por exemplo chegar com horas de antecedência na porta do Senado Federal, afim de evitar qualquer esquema de entrada privilegiada do lado contrário.

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Marcha da Maconha BH, com ou sem polícia a faixa permaneceu esticada. Foto por Sandro Marandueira

E como já previsto, o embate começou horas antes, com direito a lobbystas do proibicionismo barrados na porta do Senado. É isso mesmo, pode até parecer piada, mas não é! Tal como suas falácias programadas e contrárias a proposta, já sabíamos que os mesmo tinham acesso facilitado por algum parlamentar ou por outra entrada para ocupar a maior parte das cadeiras. Estando ciente desta informação, Diego Souza, Policial Civil da Narcóticos (RS) e a favor da SUG 8 frustou a primeira tentativa da Rossana Brasil e companhia de entrarem antes que o restante, como havia acontecido nos debates anteriores.

Apesar de confirmado a informação  e com o acesso priorizado mais uma vez, o lobby contrário percebeu que a presença em massa dos ativistas seria motivo para correrem antes do fim da audiência como aconteceu.

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Senado Verde – Foto David Alves

8:30 da manhã e, após a movimentação sorrateira da “dama de rosa”, mais de quarenta pessoas em defesa da SUG 8 se organizavam em fila na entrada do Senado, até que finalmente, praticamente às 9 horas em ponto, começaram a liberar a entrada dos primeiros na fila, que nos confirmaram que no momento em que entraram na sala da sessão a presença do deputado Luis Bassuma, Rossana Brasil e Luís Eduardo Girão, um dos possíveis financiadores das idas e vindas das caravanas proibicionistas. Então às 09:08, o senador Cristovam declara aberta a 61ª Reunião, Extraordinária, da Comissão Permanente de Direitos Humanos e Legislação Participativa da 4ª Sessão Legislativa Ordinária da 54ª Legislatura. É HORA DO SHOW! 

Enquanto Cristovam fazia a abertura da sessão, uma longa fila se formava na lateral da sala com mais de 70 inscritos, onde a grande maioria eram de pessoas com opiniões favoráveis a SUG 8 e umas poucas contra, ao ponto do senador ouvir seguidamente diversos pontos e pedidos de regulamentação da maconha, sem nenhuma defesa da oposição.

CDH - Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa
Longa fila de inscrição no começo da sessão – Foto Geraldo Magela – Agência Senado
Com a palavra, o proibicionismo na mesa.

O médico e pesquisador Aníbal Gil Lopes, padre da Arquidiocese do Rio de Janeiro, foi o primeiro a receber palavra a mesa. O padre divagou sobre a história e citou dados questionáveis, como por exemplo, o de que “depois de regulamentar, para cada 10% na redução do preço da droga, existe um aumento de 3% no número total de utilizadores e um aumento de 3% a 5% na iniciação do seu uso por jovens. Isso é válido para as primeiras décadas”. Por fim Anibal Gil disse que “não há evidências científicas que comprovem a segurança e eficácia dos canabinoides para o tratamento da epilepsia” e complementa, “no momento é aceitável apenas o seu uso em ensaios clínicos controlados”.

CDH - Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa
Aníbal Gil Lopes, padre da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Foto Geraldo Magela / Agência Senado

O próximo a defender a não regulamentação foi o psiquiatra Marcos Zaleski, que para ele, “a legalização da maconha resultará em maior consumo, colocando em risco especialmente crianças e adolescentes”. Zaleski também chamou a atenção para a dificuldade de controle da produção e venda da maconha, citando a ineficiência da proibição de venda de bebidas alcoólicas para menores. Ele citou uma pesquisa na qual 90% dos menores que tentaram comprar bebida alcoólica conseguiram fazê-lo sem qualquer constrangimento. Porém é importante lembrar que as atuais normas de regulação da cannabis mundo a fora proíbem qualquer publicidade da maconha, diferente do álcool, que patrocina inclusive a seleção brasileira de futebol.

Para o psiquiatra essa droga [cannabis] pode ter um impacto significativo na saúde pública. Alguns efeitos físicos agudos: olhos avermelhados, boca seca, taquicardia, broncodilatação. Efeitos psíquicos agudos: o indivíduo tem a sensação de calma, de relaxamento, redução da fadiga, hilaridade, angústia, tremores, sudorese, prejuízo ma memória e atenção, alteração da percepção espacial e temporal, delírios e alucinações em alguns casos”. Essa opinião do psiquiatra gerou um belo coro de vaia da platéia ativista.  Baseado em um resultado de estudo, Zaleski explica que a maconha tem a “tendência de fazer as pessoas se sentarem sem fazer nada. Isso a gente observa nos usuários crônicos de maconha; realmente são muito pouco motivados e são pessoas que precisam realmente de tratamento”. – Mais um exemplo de um psiquiatra que não conhece a realidade do consumo da cannabis, pois do jeito que ele relata o uso da maconha, era para termos um planeta Terra de pessoas improdutivas, visto que a maconha é a 3ª substância mais consumida no mundo, depois do álcool e do tabaco.

De acordo com a presidente da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e outras Drogas (Abead) Ana Cecília Marques, a dependência é uma doença tratável e, se tratada com boas práticas, recuperam-se 60% dos dependentes, como em qualquer doença crônica como diabetes e hipertensão. “Nós já sabemos tratar o dependente com as melhores práticas disponíveis. Tratar de qualquer jeito não dá. É preciso atualizar o SUS, sem a menor dúvida, e temos os caminhos. O que é preciso fazer antes de se pensar em uma política nova para uma droga nova que a gente quer revisitar? Prevenção. Está faltando prevenção neste país”, criticou ressaltando que legalizar como medida única não é solução para o problema. Para a psiquiatra a “Criança e adolescente são os personagens mais influenciáveis” e teme que isso aconteça, Ana Cecília se referia aos edibles e comestíveis a base de maconha apresentados no slide, caso regulamente a maconha.

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Presidente da Abead Ana Cecília Marques – Foto Geraldo Magela

Chega a ser surreal o ponto de vista dos pseudos ‘especialistas’ no assunto, como se o atual cenário proibitivo privasse o fácil acesso das crianças e adolescente às drogas. Os proibicionistas podem ainda não terem entendido, mas a regulamentação prestigia principalmente esses pontos, o não acesso a menores de idade, a segurança, a educação e políticas informativas para redução de danos.

Na parte de segurança pública, também presente ao debate, Alexandre Sampaio Zakir, delegado de polícia do estado de São Paulo, questionou argumentos de que a regulamentação do uso da maconha reduziria os problemas de segurança pública. Na avaliação do delegado, surgirão novos problemas, como a condução de veículos por pessoas que consumiram a droga, resultando em mais acidentes e em novas dificuldades para a atuação dos agentes de trânsito. “Outro dia eu estava pensando: você está caminhando pela rua, um sujeito que acabou de consumir a sua maconha, plantada em casa, e ele desce, pega o seu carro, sai dirigindo e atropela esse terceiro inocente, como eu vou fazer essa detecção? Através de sinais exteriores? A maconha não deixa sinais exteriores de fácil detecção”, assim disse o delegado que logo foi interrompido pela manifestação da platéia. Zakir, no entanto, admite a ineficiência do atual modelo de combate às drogas. Para ele, a repressão a traficantes, especialmente no controle das fronteiras, requer a ampliação do uso de tecnologias da informação, como as já utilizadas pelo Estado para cobrar impostos, taxas e multas. — “Precisamos combater não perseguindo usuários, mas combatendo aquele sujeito que enriquece com o tráfico, combatendo aquele policial que se corrompe e se vende dentro desse modelo e ainda mudando a legislação que não se apresenta eficaz e eficiente” — disse o delegado ao defender ainda a ampliação do uso de instrumentos de inteligência pelos órgãos de segurança pública.

O mais perdido na audiência

Se o clima já estava quente logo começou a pegar fogo, quando a ‘preocupação com os adolescentes’ também foi manifestada pelo deputado federal Osmar Terra (PMDB-RS), o pai do PLC 37. Uma pena que ele esqueceu que a SUG 8 debate exclusivamente a regulação da maconha e não outras drogas, para ilustrar bem confira (VEJA AQUI) os slides apresentados pelo deputado, Osmar mais falou de Crack, Cocaína e Heroína e pouco falou da erva em questão.  Até falou, mas quando fazia era motivo de risos ou vaias inclusive sendo lembrado diversas vezes que o assunto em questão era a maconha.

Deputado Osmar Terra, pai da PLC 37, que sequelou por completo esquecendo que o debate era sobre maconha e não outras drogas. Foto por Geraldo Magela / Agência Senado
Deputado Osmar Terra, pai da PLC 37, que sequelou por completo esquecendo que o debate era sobre maconha e não outras drogas. Foto por Geraldo Magela / Agência Senado

[quote_box_center] Segundo o deputado, um estudo do Hospital de Clínicas do RS do ano de 2009, foi detectado que todas as pessoas vítimas fatais ou com lesões graves por acidentes de automóveis e descoberto que a maior causa de morte por uso de drogas nos acidentes na Grande Porto alegre foi a maconha. – Só rindo do nobre deputado.[/quote_box_center]

De costas para Osmar -Foto por Della Kopf (Rossana Brasil) rs

Desesperadamente o deputado começa a atacar os últimos editoriais, dos principais meios de notícias, favoráveis a uma nova abordagem na política de drogas no Brasil e de repente passa a invocar Lisenko e Vavilov em uma comparação ultrapassada direto da antiga União Soviética, nos tempos de Stalim. Por diversas vezes o senador Cristovam teve que pedir ordem na casa, ameaçando suspender a sessão por algumas vezes. Toda falácia em torno de um discurso obscuro e proibicionista, era quase impossível de manter-se calado diante das nítidas manipulações.  Até que em certo momento diversos ativistas resolveram manifestarem de forma silenciosa, virando de costas para as manipulações verbalizadas pelo deputado Osmar Terra. Ainda tentando se defender Osmar afirma que “muita gente diz:  “Não; vocês estão defendendo os interesses das clínicas, estão querendo ganhar dinheiro com isso”. Não!” Logo, passa atacar terceiros em tom desesperador, “Eu quero dizer a vocês que o maior interessado na liberação de drogas no mundo chama-se George Soros, um grande especulador financeiro internacional, que financia a Viva-Rio, a ONG Igarapé… Financia todas as ONGs que trabalham pela liberação das drogas no Brasil, e com grande volume de recursos”. Inevitavelmente mais uma vez o senador interrompeu e pediu silêncio lembrando que havia naquele momento 63 inscritos para se posicionarem a favor.  Porém mesmo assim não privou o deputado de ser vaiado pela maioria presente.

Luis "Cencurar" Bassuma (esq.) calado é um poeta, mas na escrita nem tanto.
Luis Bassuma (esq.) “Cencurar” – Calado é um poeta, mas escrevendo nem tanto. Foto Geraldo Magela / Agência Senado

Após chegar o fim da mesa, Cristovam gentilmente cedeu a palavra primeiramente aos presentes que eram contrários a proposta. Teve até proibicionista convidando o senador para fumar um baseado.  O calor foi tanto após o convite do presente na platéia que Cristovam resolveu aplicar por um certo momento o regimento da casa, passando a palavra somente aos senadores e também para os Deputados presentes.

CDH - Audiência pública sobre a regulamentação do uso da mac
Senador Magno Malta e sua ‘Frente Parlamentar Mista da Família’. Foto Geraldo Magela / Agência Senado

A partir deste momento acompanhado das palavras do proibicionista senador Fleury, já vinha a mente de diversos presentes a impossibilidade de exporem os seus motivos favoráveis a SUG 8 diretamente ao Senador Cristovam Buarque. Quem aproveitou o momento da palavra, repleta de tons ameaçadores indo desde a denuncia até uma criação de uma Frente Parlamentar Mista da Família no Congresso contra a legalização das drogas, foi o senador Magno Malta que ficou ocupando boa parte do tempo da audiência com suas balelas proibicionistas e com a denuncia de um vídeo, sobre uma transmissão de uma videoconferência realizada por Cassiano Teixeira, o cidadão que recebeu voz de prisão na 3ª audiência sobre o uso medicinal da maconha. Magno Malta levou de um ‘dependente’ de maconha, que, aos 14 anos, já havia cometido 4 homicídios, um ‘monstro’ (segundo Malta) recuperado, entre outros que claro foram levados a esses fins devido a maconha, assim afirmou o senador, dando sequência com sua triste história de vida relacionada às drogas e por fim finalizou sua fala dizendo que aguardava o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na próxima audiência pública, a qual Cristovam disse que não seria mais realizada.

Por fim as vozes verdes

Depois de Malta mais alguns se pronunciaram contra até que por fim chegou a nossa vez. Quem abriu a listas dos favoráveis foi o Policial Civil, Diego Souza Ferreira, do Departamento de Investigações do Narcotráfico do Rio Grande do Sul que apoiou a SUG 8 e defendeu uma nova política de drogas.

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Usar Não é Crime, Plantar Também Não! – Por Sandro Marandueira

Na sequência, Dr. André Barros, advogado da Marcha da Maconha e colunista do SmokeBud, chegou explanando que a luta vem de anos, através das marchas da maconha que a polícia proibia violentamente nas ruas e os promotores se manifestavam contra, até que Em 2011, felizmente, o Supremo Tribunal Federal garantiu a Marcha da Maconha, por nove a zero, dizendo que ela estava amparada pela Constituição Federal”. André por fim conclui afirmando que a raiz da criminalização da maconha, é clara e evidentemente racista.

“Maconha era a vingança dos negros contra os brancos em razão da escravidão”, o Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Nós não podemos ser o último país a legalizar a maconha no mundo”.

Apesar de muita falta de compreensão sobre os usos recreativo e medicinal, por parte dos que são contra a proposta, dois relatos sobressaíram como contraponto à tese de que a liberação terapêutica da maconha vai abrir as portas para o uso recreativo: O primeiro fica por conta do depoimento da, enfermeira e pós graduada em Saúde Mental pela ENSP, Elaine Alves portadora de fibromialgia, mas devido ao alto custo para importar ela uso o produto doado por amigos.

– “É muito fácil dizer “vamos proibir”, mas o que vai ser feito com as pessoas que precisam do remédio, pois não são só crianças com epilepsia, não! Estou eu aqui como exemplo para vocês”.

Mais emotiva, a engenheira Patrícia Rosa foi a porta voz das mães e pacientes com epilepsia de difícil controle, contando a sua luta pelo controle do quadro de epilepsia grave da filha, Deborah, de 19 anos, portadora de síndrome de Dravet.

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Patrícia Rosa em sua emotiva fala. Foto Sandro Marandueira

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Marisa Lobo, NÃO!

Mais uma vez com um discurso carregado de preconceitos e informações destorcidas, como por exemplo, a quantidade de crianças que necessitam do uso terapêutico da cannabis, que segundo ela afirmou serem só 77 e não 700 mil, baseando-se numa publicação de uma revista, Marisa aproveitou, já que seus poucos argumentos contrários estão esgotados e refutados, e foi chorar as retalhações que a – “a pobre coitada, a vítima”  vem sofrendo através da sua página oficial no Facebook e uma outra intitulada Marisa Lobo Não.

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Repleto de bom senso e diferentemente dos profissionais da saúde clínica – dos especialistas da mesa, o médico Dr. Paulo Fleury Teixeira, levou ao debate uma visão lacunar de um profissional da saúde pública.

“O fato é – e estou dizendo isso com todas as letras – que não há evidência de qualquer doença, problema de saúde crônico provocado à saúde pública pelo uso de maconha. (…) Enquanto estamos neste debate aqui, alguém está sendo preso agora, há um jovem sendo jogado na cadeia, há um jovem sendo torturado agora. Inclusive pelo uso, e o senhor (Cristovam) sabe que é inclusive pelo uso. Nós temos uma responsabilidade social e nós não podemos nos omitir”.

O próximo favorável a receber a palavra do senador, foi o Profeta Verde (Fernando da Silva) que tentou no primeiro momento ler a carta de Rás Geraldo, mas devido ao tempo Cristovam solicitou que a carta fosse lida ao término da audiência.

#LiberdadeRásGeraldo - Profeta Verde. Foto por Geraldo Magela / Agência Senado
#LiberdadeRásGeraldo – Profeta Verde. Foto por Geraldo Magela / Agência Senado

Entre os inscritos, nomes reconhecidos na luta nacional pela legalização da maconha, como Renato Cinco (vereador do RJ pela bandeira do PSOL), os representantes da Marcha da Maconha de Belo Horizonte, Francesco ‘Mandacaru’ Ribeiro, entre outros que manifestaram-se com seus discursos baseados em sua experiência na luta contra uma política proibicionista e violenta sustentada pela fracassada guerra às drogas.

O auge da audiência foi o Chilique Proibicionista, que rolou por volta das 14:20, quando o senador Cristovam informou que a partir daquele momento ‘havia um problema’: 23 inscritos do lado “a favor” e nenhum mais do lado contra. Com muita dificuldade o senador tentava explicar o que iria ser feito, quando o Promotor de Justiça Sérgio Harfouch tentou mais uma vez interromper e Cristovam rispidamente disse que ele não estava com a palavra. Parece que o promotor ficou ofendido e ‘pediu licença’, que por sorte de todos incentivou a “Dama de Rosa” – Rossana Brasil, a interpretar uma cena memorável (já que não achamos registro em vídeo), saindo do seu lugar indo até a frente da mesa da comissão e gritar para o senador: “O senhor não me representa como Senador desta Comissão”. ACREDITEM eles saíram da sala, abandonando o debate justo quando Cristovam lhes daria a palavra

Podemos não ter o vídeo, mas temos o áudio de todo autoritarismo e malcriação dos proibicionistas. Confira a partir dos 3:00 minutos:

Pronto. Depois de uma espera de mais 6 horas – sem contar o tempo do lado de fora no Senado Federal, chegou a nossa vez, mais dois representantes do SmokeBud falarem.

Eu, Dave Coutinho, após horas escutando os discursos incisivos e hostis dos proibicionistas, que iam de maconheiro improdutivo a dados questionáveis e suportando os olhares de deboches dos proibicionistas, fui direto ao ponto lembrando ao Senador da Educação, que a proibição às drogas não vai se resolver nunca com a força policial,  nem com a repressão, com a política higienista que o Deputado Osmar Terra quer implementar, mas vai se resolver em cima de regulamentação e educação.

“Legalizado ou não, eu vou continuar consumindo. E o que vai continuar acontecendo? Eu vou continuar sustentando o tráfico de drogas por culpa do Estado, porque o Estado não regulamenta, não dá educação, não ensina. Ele só quer proibir, e a proibição não resolve, não vem resolvendo há décadas e nem vai resolver nas próximas décadas.”

Quer saber como é a sensação de falar no Senado?
Aperte e Leia: Como é falar de maconha na Comissão de Direitos Humanos

Com a palavra mais um da equipe #Sb Celso Junior, que lembrou, em resposta ao argumento de que a regulação aumentaria o consumo, que não existem dados conclusivos sobre o numero de usuários no Brasil devido à criminalização por parte do estado. Reforçou o direito de cultivo e uso privativo da erva parafraseando o Dr. Drauzio Varela e deixando a pergunta: “Por que você se incomodaria com seu vizinho por ele fumar um baseado em casa?”

Após Celso, a lista de participantes finalmente chegava ao fim, dando continuidade aos que se manifestaram seguidamente a favor da proposta na última audiência pública da #SUG8 e que você pode conferir abaixo na playlist com todas as participações:

4:20 na SUG 8
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Profeta Verde porta voz de Rás Geraldo. Foto Sandro Marandueira

Depois de um longo dia e após os agradecimentos a mesa, passando das 16:00, o senador Cristovam passa a palavra novamente ao Profeta Verde, para a leitura da carta de Rás Geraldo, líder rastafári de Americana, interior de São Paulo, preso e condenado a 14 anos por cultivar e fazer uso sacramental da maconha. Acreditem que por coincidência – ou não, a última Audiência Pública da SUG 8 encerrou às 16:20. O registro abaixo não nega o acontecimento e o clima de felicidade dos que aguentaram mais de 7 horas defendendo uma nova política de drogas acerca da maconha.

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AHaaa 16:20 na SUG 8 – Foto David Alves
Considerações finais – Na Pontinha ~ 

Não foi simples resumir um dia, que durou mais de 9 horas, entre audiência e atos anteriores, nesta postagem. Apesar de ter sido o último debate o mesmo deixa a sensação de ter sido o primeiro na participação popular dos ativistas e especialistas favoráveis a regulamentação da maconha.

Não podemos afirmar que além da regulação do uso medicinal da maconha, algo que o senador já afirmou que dará prioridade, venha seguido de uma regulamentação do uso recreativo. Esperamos que ao menos o debate sobre o recreativo, industrial (que não foi citado nos debates anteriores) e se incluído o religioso, continue sendo debatido. Diferentemente do proibicionismo cego, sabemos que não é um debate com soluções para amanhã e sim a longo prazo.

A regulação da maconha só ocorrerá com esforços em conjunto, com mais participação inclusive dos próprios maconheiros. O proibicionismo está desesperado, despreparado e sem argumentos seguros, algo que o lobby pela legalização – assim como eles preferem nos chamar, está muito mais munidos e preparado inclusive ao ponto de informar, baseados em dados, que a regulamentação é benéfica a toda sociedade e não só aos usuários.

Pode ser prematuro dizer que dessas audiências legalizaremos a maconha, mas nunca se falou tanto na última década sobre a erva no Brasil, como neste ano de 2014. O assunto foi tirado debaixo do tapete e a pressão tem que continuar por todos os lados e que venham os proibicionistas com sua frente parlamentar e com seu Brasil ‘utopicamente’ Sem Drogas que estamos a postos e continuaremos buscando uma reforma na Lei de Drogas, principalmente acerca da maconha. Vamos nessa que ainda temos muita coisa para ‘bolar’ em prol da regulamentação da maconha.

Aperte, confira e apoie: //reguleamaconha.com

Acesse e leia na íntegra a nota taquigráfica: https://www.senado.gov.br/atividade/comissoes/sessao/escriba/notas.asp?cr=2807

Confira abaixo alguns registros da 6ª audiência pública:

Fotos por Hélio Pessoa

 

Fotos por David Alves

 

Fotos por Sandro Marandueira

  • Post lindo! Nunca vi uma notícia também estruturada e com tantos link na minha vida e olha que sou um profissional da arquitetura da informação.

    • Valeu Gustavo, com muito trampo e dedicação vamos nos aperfeiçoando. O assunto é importante e cada passo, na última ap da #SUG8, mereceu ser explanado. Fico feliz em ser avaliado por um profissional. Abraços!