Novo presidente do Uruguai não tem pressa de regulamentar venda de maconha. Tabaré Vázquez pode mudar lei implementada por Mujica. As informações são do O Globo.

MONTEVIDÉU – É um alerta curioso. Na Urugrow, primeira Grow Shop (loja que vende produtos e consultoria para a plantação de cannabis) do Uruguai, que abriu em 2012, em meio às marchas que antecederam a aprovação da Lei 19.172 sobre produção, consumo e distribuição de maconha, um pequeno papelzinho avisa: “Não vendemos maconha, nem sabemos onde se consegue”. É que o ex-presidente José Mujica deixou a presidência do país domingo passado — e seu sucessor, Tabaré Vázquez, da esquerdista Frente Ampla, será o encarregado de dar o toque final no processo de regulamentação da lei que tornou Mujica uma celebridade mundial. Vázquez deverá implementar a venda nas farmácias, o ponto mais polêmico da iniciativa, em relação ao qual manifestou públicas discordâncias com seu antecessor.

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No alto, jovens fumam maconha em praça em Montevidéu – Fotos de Janaína Figueiredo / O Globo

A expectativa entre os consumidores uruguaios é grande e se mistura com o temor de que o novo governo faça modificações no texto, aprovado pelo Parlamento em dezembro de 2013, possibilidade que Vázquez, um oncologista de 75 anos, cogitou durante sua campanha. Em sua primeira semana de gestão, o novo presidente deixou claro que não tem pressa para dar sinal verde ao comércio de maconha em farmácias. O novo secretário da Junta de Drogas, Milton Romani, declarou à imprensa local, que “não queremos fazer as coisas às pressas e ficar presos em prazos que a lei não estabelece”. Em outras palavras, a venda da cannabis em farmácias não tem data para se tornar realidade.

Já durante a campanha de 2014, Vázquez expressou suas dúvidas sobre este ponto do texto.

— Vamos cumprir a lei, realizar um seguimento muito rigoroso dos acontecimentos e, se for necessário modificá-la, será enviado um projeto ao Parlamento — afirmou.

Vázquez nunca escondeu suas divergências com Mujica e outros setores da Frente Ampla. Em seu primeiro mandato (2005-2010), o presidente vetou uma lei sobre legalização do aborto, iniciativa que Mujica aprovou em seu governo. Quando ainda era candidato, Vázquez referiu-se à venda de maconha nas farmácias como algo “insólito”, deixando clara sua posição.

Nos últimos meses, outros artigos da lei entraram em vigor, entre eles o registro de consumidores e de clubes de plantadores de cannabis. A produção será privada (cinco empresas já venceram as licitações para produzir em terrenos do Exército), mas o Estado assumirá totalmente o controle das atividades de plantação, colheita, produção, comercialização e distribuição. Cada pessoa pode comprar até 40 gramas por mês e cultivar seis plantas. No caso de clubes ou cooperativas com 45 ou mais sócios, serão permitidas até 99 plantas. De acordo com dados da Junta Nacional de Drogas, divulgados no final do ano passado, já foram inscritas 1.200 pessoas no registro de cultivadores e criados 500 clubes de cannabis.

FARMÁCIAS PREFEREM O SILÊNCIO

Nas farmácias de Montevidéu, prevalece a cautela. Ninguém quer aparecer falando sobre a venda de maconha, que, segundo alguns rumores, começaria em meados deste ano. Procurados pelo GLOBO, representantes do setor farmacêutico negaram-se a fazer comentários sobre a regulamentação do comércio de maconha, alegando “não querer influenciar as ações do novo governo”.

O consumo de maconha é livre no Uruguai desde a década de 70. A grande revolução promovida por Mujica foi legalizar a produção e, principalmente, a venda em farmácias, medida inédita na região e no mundo. O ex-presidente e seus aliados que defendem a lei acreditam que ela representará um duro golpe para o narcotráfico. Na despedida de “Pepe”, como é chamado o ex-chefe de Estado por seus compatriotas e fãs estrangeiros, a lei da maconha foi uma das mais aplaudidas.

— Sou admiradora de Pepe e vim do Chile para sua despedida — comentou a chilena Valentina Pena, vestindo uma camiseta com a imagem do ex-presidente e de uma planta de maconha.

Ela e seu amigo uruguaio, Victtorino Pradeiro, mostraram-se confiantes sobre a reta final da regulamentação.

— Estas são mudanças sociais profundas, levam tempo. Mas acreditamos que Tabaré vai ser fiel ao espírito da lei — disse Pradeiro.

A lei emblemática de Mujica atraiu muitos estrangeiros, como o brasileiro Fabio Bastos, que desde 2013 mora no Uruguai, onde criou a empresa Sediña, que está plantando maconha com fins industriais e venderá, entre vários outros produtos, canabidiol, óleo medicinal que alivia dores de pessoas com câncer e epilepsia, entre outras patologias. O objetivo é exportar produtos para o Brasil.

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Ezequiel Mendoza, sócio de Bastos, expressou confiança em Vázquez.

— Tabaré vai regulamentar a lei e exercer um controle firme. Mas não poderá voltar atrás, a força de Mujica é majoritária no Parlamento e na Frente Ampla — enfatizou.