A jornalista e sommelière Tânia Nogueira foi ao Uruguai com a missão de harmonizar dois prazeres, um bom baseado e tannats, a uva adotada pelo Uruguai na produção de seus melhores vinhos. Confira a jornada da jornalista, as informações são do Brasil Post

Garçom, um baseado, por favor!

Cheguei ao Uruguai disposta a testar a harmonização entre maconha e tannats. Afinal, agora todo mundo sabe que, por aqui, a droga é legal. Nas primeiras horas, fiquei atenta para ver se não passávamos em frente a uma loja de maconha. Nada! Então, resolvi que iria perguntar para alguém na rua sobre onde eu poderia encontrar a melhor Cannabis sativa da região. Contudo, como venho de um país onde ser chamado de maconheiro é uma ofensa, fiquei um pouco tímida de abordar o porteiro do prédio onde estou em Punta del’Este ou a senhora do apartamento ao lado. Achei que garçons seriam as pessoas certas para me recomendar um bom fornecedor.

Na terça (25), fomos tomar um espumante no exclusivo hotel Fasano Las Piedras, onde fomos super bem atendidos. Acho que seríamos mesmo se eu não estivesse meio vestida de perua. Escolhemos um Pizzorno Brut Rosé, o único espumante uruguaio da carta do Lounge, um bar maravilhoso, todo envidraçado. O vinho era simples, mas gostoso, e os garçons tão simpáticos que, depois de pedir indicação sobre bodegas a visitar, me animei a perguntar pela erva: “Onde posso conseguir maconha aqui pela região?” Sorrindo, o garçom me deu a má notícia: “Ainda não é possível comprar maconha legal no Uruguai”. Que droga! Como assim, é legal mas não é? “Não há nenhum lugar onde eu possa fazer uma degustação?” “Infelizmente, não”, respondeu ele já com um ar de cumplicidade. Disse, então, que a droga só seria vendida em farmácias, para uruguaios e em quantidades pequenas. Saí bastante satisfeita com o vinho, o atendimento e o ambiente, que é lindo, mas frustada por descobrir que maconha não ia rolar.

Como meu amigo do Fasano não parecia saber de detalhes, decidi que deveria insistir. Na mesma tarde, paramos para tomar outro espumante vendo o pôr-do-sol no Cactos y Pescados, em Manancialles, uma praia muito simpática ao norte de Punta. Novamente, a carta não tinha muitas opções de espumantes uruguaios. Ficamos com o Família Deicas Brut, que a princípio achei com um aroma animal que me incomodava. Com o tempo, os aromas frutados, florais e de panificação (comum em espumantes devido ao contato com as leveduras) foram se abrindo e me conquistaram. Mais alegre, voltei a abordar o garçom, também muito simpático, e ele confirmou que ainda não havia maconha legal no mercado. “O problema é que o governo não pode deixar a gente comprar do narcotráfico”, disse. “O governo está plantando e dando licença para algumas pessoas plantarem. Você vai poder montar clubes de consumidores, que plantam para consumo próprio.” Frustrada mais uma vez, voltei para casa e tomei um Nimbus, pinot noir chileno bem elegante, que havia comprado no freeshop de Chuy, na fronteira.

Na quarta (26), voltei a atacar. Alguém deveria já estar produzindo maconha legal neste país! E, se houvesse alguém, a garçonete de cabelo modernoso de um café super simpático do qual não me lembro o nome em Pueblo Garzón saberia me dizer. O povoado muito singelo a meia hora do litoral é um daqueles lugares que reúne uma população de hippies chiques — tudo começou com o super chef argentino Francis Malmann construindo por lá um restaurante e pousada. Bebemos um Alvarinho da Bodega Garzón, o melhor alvarinho feito fora de solo português que já tomei, e comemos umas tapas deliciosas. A moça logo disse que não sabia muito do assunto porque nunca tinha fumado maconha, mas achava que sim, que já estavam vendendo a droga legalmente. As pessoas fumavam na praça em frente sem nenhum problema. Havia, inclusive, um senhor na serra que produzia uma Cannabis super especial, orgãnica, sem nenhum aditivo químico, que vinha fresca, com a flor. Ou seja, o famoso camarão. Fiquei animada e pedi se ela me conseguiria o contato desse senhor. A moça deu uns telefonemas e voltou informando que o senhor vendia a droga a US$ 100 por 100 gramas. Preço justo para um produto tão especial. Pedi o telefone do produtor. Ela disse que não poderia passar o número. Um outro garçom, então, explicou que o negócio ainda não era tão legal, assim! Decepcionada, recuei: eu só compraria se fosse legal.

De lá, seguimos para José Menino, digo José Ignácio, a praia mais descolada do momento na região de Punta. Sem querer, caímos na porta do Parador La Huella, o restaurante mais badalado de Punta, segundo minha amiga Cláudia. Não queríamos beber mais, mas já que estávamos ali… Entramos, pedimos um clericot (veja receita no post O drinque dos chiques e famosos) e ficamos ali estirados nos sofás. Nosso garçom era completamente hipster, então, achei que ele entenderia do assunto e voltei à carga. Descobri que havia uma esperança. A coisa ainda não está definida, a lei está sendo regulamentada. Então, talvez o turista consiga fumar maconha de forma legal no futuro. Além disso, segundo o rapaz de óculos de nerd e bermuda que parecia uma cueca, fumar já deixou de ser crime há tempos. Então, se, por um acaso, alguém me der um baseado, não vai pegar nada. Em todo caso, mesmo sem provar, esses dias faço outro post com dicas de harmonização entre vinhos uruguaios, laricas uruguaias e maconha (uruguaia, é claro, porque ninguém aqui está fazendo apologia ao crime).

Texto publicado originalmente no blog .CRU

*Tânia Nogueira é Jornalista e sommelière. Com experiência em reportagem e edição em diversas áreas do jornalismo, Tânia escreve sobre vinhos e comida há mais de uma década. Foi editora do jornal Folha de S.Paulo e repórter das revistas Época e Veja, entre outros. Em 2011, se formou sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo e escreve o blog .CRU.