Depois do canabidiol, pacientes já se articulam para liberar o THC, outro derivado da planta. As informações são do Estadão.

Ao mesmo tempo em que comemoram a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de retirar o canabidiol (CBD) da lista de substâncias proibidas no Brasil, pacientes que defendem o uso da maconha medicinal já se articulam para pressionar as autoridades a liberar outro derivado da planta com propriedades terapêuticas: o tetrahidrocanabinol (THC).

A substância é responsável pelos efeitos alucinógenos da maconha, mas, associada ao CBD, também tem efeitos benéficos no alívio da dor e dos espasmos da esclerose múltipla e de outras doenças degenerativas do sistema nervoso. O canabidiol, isolado, é indicado para quadros epiléticos graves. Já aprovado em outros países, o medicamento que associa as duas substâncias está sendo alvo de processos movidos por brasileiros que buscam na Justiça autorização para importar o produto, que tem menos efeitos psicotrópicos do que a planta fumada.

Com doença congênita na coluna, a estudante mineira Juliana Paolinelli Novaes, de 35 anos, foi a primeira a conseguir a autorização judicial para importar o remédio com THC, mas, até hoje, cinco meses após a decisão, não conseguiu ter acesso ao medicamento, por causa do preço. “A única importadora que aceitou trazer cobrava R$ 9.300 por três frascos, que não davam nem para um mês. Na Europa, o frasco custa R$ 695. Não tenho condições de pagar o que pedem”, afirma ela, que usa o CBD em pasta e fuma cigarros de maconha para aliviar dores.

Mesmo sabendo das dificuldades, a bancária Camila Gontijo, de 34 anos, pretende seguir o mesmo caminho de Juliana. Ela vai ingressar com ação pedindo autorização para importar o medicamento e exigir que o Estado pague pelo produto por seu custo alto. Enquanto não obtém o medicamento, também recorre ao cigarro de maconha para aliviar as dores e espasmos provocados por um problema degenerativo que tem na coluna.

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“Essa doença faz com que os discos da coluna comprimam os nervos. Já fiz três cirurgias, até que não aguentava mais e decidi testar o canabidiol e a maconha há três meses. Melhorei muito. Antes não conseguia trabalhar, dirigir. Agora estou tendo uma vida quase normal. É uma pena que a gente não tenha acesso ao medicamento e tenha de depender de uma coisa ilegal para amenizar nossos sintomas”, diz ela.

Vitória. Além de torcer para que a liberação do canabidiol no Brasil amplie a discussão sobre outros derivados da maconha, pacientes esperam que a decisão da Anvisa facilite o processo de importação do CBD, que, embora tenha deixado a lista de substâncias proibidas, ainda precisa ser comprado fora do País. Não há autorização para comercialização do produto em território brasileiro.

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Ayla, com Gabriella e Manuella. As duas filhas sofrem de Síndrome de West, que causa crises convulsivas frequentes

“Em primeiro lugar, espero que a liberação pela Anvisa faça com que mais médicos prescrevam o CBD, porque é difícil encontrar algum que aceite”, diz a técnica de enfermagem Ayla Carla Martins Muniz, de 27 anos, mãe das gêmeas Gabriella e Manuella, de 2 anos, que sofrem da Síndrome de West, doença que provoca frequentes crises convulsivas.

“A Manuella já está tomando o CBD porque consegui autorização da Anvisa. Entrei com o pedido dela primeiro porque ela tinha crises graves e não respondia à medicação tradicional. Eram 60 crises por dia, ela não conseguia dormir. A Gabi estava com um quadro mais leve, mas os exames já estão mostrando alterações, então pretendo entrar com o CBD também”, conta Carla.

Ayla diz que também espera que a liberação do composto faça com que o Estado passe a ser obrigado a fornecer o medicamento de forma gratuita. “Entrei na Justiça em novembro, pedindo que a Secretaria da Saúde de São Paulo custeasse o tratamento e ganhei, mas, até hoje, não recebi. Parece que são questões burocráticas que causam essa demora. Espero que isso fique mais ágil a partir de agora”, afirma.

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Com a decisão da Anvisa de retirar o CBD da lista de substâncias proibidas, e a possibilidade de liberação, no futuro, de outros compostos derivados da maconha, empresas americanas que comercializam o canabidiol já estão de olho no potencial mercado brasileiro.

Com sede na Flórida, a HempMeds, produtora de um dos medicamentos à base de CBD, já criou um site em português e atendimento telefônico no Rio e em São Paulo.

PARA ENTENDER

Na quinta-feira, o uso terapêutico do canabidiol, uma das substâncias presentes na maconha, foi liberado no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou por unanimidade a mudança na classificação da substância, que deixou a lista de produtos proscritos e passou para a de uso controlado.

A decisão teve como ponto de partida relatório da equipe técnica da Anvisa que, como a Agência Estado antecipou na terça-feira, era favorável à liberação. Diretores foram unânimes em argumentar não haver motivos para que o canabidiol permanecesse na lista de proscritos, pois não tem efeito psicoativo e não há registro de que cause dependência.

A decisão, em um primeiro momento, não deve mudar a rotina das famílias. A exigência da autorização especial para importação continua. Produtos com canabidiol geralmente contêm outras substâncias.

Hoje, um pedido de importação especial é avaliado em quatro dias. A intenção é reduzir o prazo para dois dias, com nova regulamentação. As solicitações continuarão a ser individuais, com base em pedidos médicos.

Requerimentos especiais de importação de medicamentos com canabidiol começaram a ser apresentados na Anvisa no ano passado. Até agora, a agência recebeu 374 solicitações, das quais 336 foram autorizadas.

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