O jantar foi a terceira edição do Luck Pot, uma série de encontros destinados a usuários adultos de maconha, patrocinado em parte por um grupo rotativo de empresas de maconha medicinal com sede no norte da Califórnia. As informações são do The New York Times, com tradução via UOL

Em um canto escuro aqui no distrito de Mission, em 31 de março, as portas se abriram às 19 horas para um jantar “pop-up” pouco divulgado. Parado na entrada estava um homem que verificou meticulosamente as identidades de cada um dos 60 convidados, até de dois com cabelos brancos. Dentro do bar, mesas compridas estavam postas com taças de vinho, cartões que marcavam os lugares e uma coisa que não se vê mais com tanta frequência: cinzeiros.

Logo depois que a festa começou, a fumaça já flutuava pelo salão, iluminado por um belo lustre. Os garçons passavam com minipanquecas kimchi [típicas coreanas] preparadas pelo chef da noite, Robin Song, do famoso bar Hog & Rocks, que serve petiscos de carne de porco e ostras. Um professor universitário que chegou um pouco mais tarde deslizou na cadeira, dizendo: “sabe, dá para sentir o cheiro deste lugar do outro lado da rua”.

O jantar foi a terceira edição do Luck Pot, uma série de encontros destinados a usuários adultos de maconha, patrocinado em parte por um grupo rotativo de empresas de maconha medicinal com sede no norte da Califórnia. Para entrar, os hóspedes precisam apresentar um cartão de identificação de uso de maconha medicinal autorizado pelo estado, que se tornou possível por meio de um programa criado em 1996 pelo Departamento de Saúde Pública da Califórnia.

Anonimato
O Luck Pot foi criado por dois amigos de 30 e poucos anos que deram entrevista sob condição de anonimato por causa da situação jurídica nebulosa em torno da indústria da maconha. (Isso apesar do fato de que o evento em si parece estar dentro da lei na Califórnia: o departamento de saúde pública da cidade trata festas particulares em locais públicos como se fossem em uma casa particular, então o uso da maconha medicinal em um evento como este é legal, de acordo com Nancy Sarieh, porta-voz do departamento de saúde pública da cidade; Robert Raich, advogado especializado na lei da maconha medicinal, concorda).

Naquela noite, uma mulher usando um vestido de bolinhas recebeu os convidados com o que pareciam ser aperitivos de bar: nozes carameladas, pretzels, amendoins apimentados. Mas, ao contrário dos petiscos de costume, cada um deles vinha com uma dose sugerida de maconha. “Estes são o que chamamos de nossos ‘comestíveis para o dia-a-dia'”, disse Lauren Fraser, um gerente de fundos mútuos de 29 anos e hoje presidente da Auntie Dolores, uma empresa especializada em gêneros alimentícios com maconha, com sede em Oakland, Califórnia.

26POT-articleLarge-v2
Baseado aceso, fumaça no ar – convidados degustam novas cepas e produtos derivados da maconnha

Mandi Bateman, professora de Pilates de 38 anos de idade, de rabo de cavalo, tinha dirigido desde Sausalito, Califórnia, e parecia incomodada. “Acho que ainda tenho aquele medo persistente de que podemos ser presos por fumar maconha”, disse ela. Curtir um barato com um bando de estranhos não foi sua principal motivação para comparecer naquela noite. “Achei que eu poderia conhecer alguns homens interessantes”, disse Bateman. “Mas então percebi que, espere aí, não quero namorar um maconheiro.”

Suas chances eram boas. A proporção de homens para mulheres era de quase dois para um, e não eram um bando de largados ao estilo “Jovens, Loucos e Rebeldes”. Os ingressos custavam US$ 120 cada e, entre os presentes, havia engenheiros de software, químicos orgânicos, advogados, escritores, MBAs de Stanford e caras de tecnologia do Google, Pandora e Salesforce.

‘Empreendedores’
Também estavam presentes vários “potrepreneurs” [ou “maconhemprededores”], que pareciam estar prontos para 2016, quando espera-se que a maconha seja legalizada na Califórnia. Entre eles estava um copatrocinador do evento, Mike Ray, 35, ex-negociante de Wall Street que agora é diretor na Bloom Farms. Questionado sobre as diferenças entre o mundo das finanças e a incipiente indústria da maconha, Ray disse: “as pessoas são muito mais legais” na segunda.

Para Arianne Simone, 28, mestre de Reiki com um penteado afro perfeito, a noite foi uma surpresa total. “Meu namorado disse: ‘hoje vamos para um jantar com muita erva’, e eu respondi ‘Oba! Oba! Oba!'”

Scott Samuelson, 42, um produtor de comerciais para televisão, disse que estava lá pela comida. “Eu tinha ouvido falar que era um jantar pop-up coreano”, disse ele. “A maconha foi apenas um bônus.”

Um dos anfitriões, usando um blazer, encaminhava as pessoas para seus lugares. “Na sua mesa está o primeiro de três baseados”, disse ele, agindo como uma espécie de sommelier de maconha. “Esta noite estamos apresentando as flores cultivadas por um coletivo de dez agricultores de Sonoma, com um total de 150 anos de experiência conjunta no cultivo artesanal em ambientes fechados.”

Havia um baseado farto, enrolado profissionalmente, em cada cinzeiro. A primeira maconha da noite era de uma cepa chamada Girl Scout Cookies [biscoitos de escoteira]. “É uma mistura de indica-sativa, com 59 dias de floração”, disse ele. “Vocês sentirão o doce das sempre-viva com notas suaves de pimenta.” Ele abordou um aspecto que os sommeliers de vinho não discutem: o efeito. “Isso deve fazer vocês se sentirem concentrados e relaxados”, disse ele. “Com a cabeça um pouco pesada. Então animem-se. Comam. Aproveitem.”

Enquanto as pessoas enrolavam pedaços de carne de porco em folhas de alface e sopravam baforadas de fumaça, eram convidados a se apresentar em quatro palavras.

“Kyle”, o namorado da mestre de Reiki, disse: “Gosto de afros”.

“Justin”, disse outro homem. “Odeio o câncer.”

“Marido cuidando dos filhos”, disse Celine Schafer, 37, mãe de três crianças.

A conversa voltou-se para como, exatamente, eles tinham conseguido suas carteirinhas de uso de maconha medicinal.

“Eu disse para o médico no Skype que eu tinha problemas para dormir”, disse Schafer. “Ele me disse ‘faça fumaça’.”

“Todo mundo diz, ‘tenho insônia, tenho ansiedade'”, reclamou Andrew Bock, 34. “Já eu ‘tenho doença de Crohn’s, sou legítimo!'”

Os garçons começaram a retirar os pratos. Um pânico se instalou. “Espere, acabou?”, perguntou um convidado. “Deve ter mais comida”, disse o professor. “É um jantar de maconha.”

As pessoas se alegraram quando o segundo prato chegou: um cozido de batata com carne de porco e um baseado feito com uma cepa chamada Fire OG. “Tem 21% de THC”, disse um anfitrião. “É doce e terroso, ligeiramente amadeirado. Isso vai elevar sua mente e dar uma moleza no corpo inteiro.” Talvez moleza demais. De repente, uma cadeira caiu. “Mulher no chão!”, Alguém gritou. Três indivíduos ajudaram a mulher que ria a se levantar.

O terceiro prato vinha acompanhado do Holy Grail, a última maconha da noite e a mais forte. O anfitrião circulou distribuindo sacos plásticos Ziploc. “Alguém tem um baseado que precisa de um saquinho?”, perguntou ele, como um professor pré-escolar entregando lanches. “Ah, meu Deus, é maconha demais”, disse Koch, apontando para vários baseados fumados pela metade, ainda no cinzeiro.

Schafer sorriu e colocou um na bolsa. “É para o meu marido”, disse.