Daniel Vidart (casado com a argentina Alicia Castilla, uma ativista que foi presa por cultivar maconha) acompanhou de perto o debate que levou à lei que regula o mercado da maconha no Uruguai. O livro foi desenvolvido ao longo de 9 meses de pesquisas. Nesse tempo, Vidart viajou por Argentina, Chile e Uruguai, participou de reuniões de cultivadores e apreciadores da erva e, inclusive, consumiu para assegurar-se dos efeitos. As informações são da EFE via Yahoo!

Montevidéu, 30 set (EFE). – O movimento que surgiu nos últimos anos para legalização da maconha e seu modo atual de consumo são analisados pelo antropólogo uruguaio Daniel Vidart, de 94 anos, no livro “Marihuana, la flor del cáñamo”, que será apresentado hoje (01) em Montevidéu.

Marihuana, la flor del cáñamo
Ao pé da letra: Maconha, a flor do cânhamo – Uma alegação contra o poder Imagem reprodução / internet

A obra, ainda sem tradução para o Brasil, será apresenta na 37ª edição da Feira do Livro de Montevidéu e tenta diminuir a “ignorância” existente entre a população sobre uma planta que foi usada durante milhares de anos, explicou à Agência Efe Vidart.

O autor comparou a proibição da maconha com a da erva-mate quando os jesuítas chegaram ao Uruguai ou com a do café na Rússia há alguns séculos, onde “se cortava o nariz e as orelhas daqueles que o consumiam”.

O antropólogo assegurou que, na história, personagens como o empresário americano Randolph Hearst – o “Cidadão Kane” do filme – influenciaram para que ela se tornasse ilegal, dado que fizeram pressão ao considerar que prejudicava seus negócios.

O trabalho de Vidart demorou nove meses. Nesse tempo, viajou por Argentina, Chile e Uruguai, participou de reuniões de fumantes e, inclusive, consumiu para assegurar-se dos efeitos.

“Eu nunca fumei antes, mas, como antropólogo, tive que fazer todos os testes possíveis, entre eles, experimentá-la, embora tenha me provocado apenas um leve enjoo ao caminhar. Nem gargalhada, nem loucura, nem sonho, como ocorre em outros casos”, explicou.

O autor ressaltou que o cannabis é um tabu, entre outros motivos, porque é considerada como a substância com a qual os jovens iniciam o consumo de outras drogas, como o crack ou a cocaína.

“Mas na minha pesquisa pude ver que não é uma droga associada às classes baixas, pois, na clandestinidade, fumam advogados, médicos ou colegas antropólogos”, acrescentou.

O papel da maconha no âmbito da criação cultural também foi destacado pelo escritor, que citou como exemplos os artistas surgidos do movimento rastafari e da contracultura da década de 60 nos Estados Unidos.

Ele destacou o ativismo em defesa de sua descriminalização surgido nos últimos anos, que é capaz de juntar milhares de pessoas em mobilizações. Para ele, a lei uruguaia que regulariza sua compra e venda e sua plantação doméstica, aprovada em dezembro de 2013, “abre as portas e as janelas” para que os fumantes abandonem o secretismo com o qual até agora consomem o cannabis.

Daniel Vidart e Alicia Castilla
Daniel Vidart e Alicia Castilla – Reprodução arquivo pessoal