No domingo, dia 6/10/2013, como membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, fui acompanhar a instalação da UPP do Lins. Muitos colegas, defensores públicos no caminhão da instituição e mídias alternativas contribuíram para dar outro ar ao momento da chegada do BOPE, polícia montada, helicópteros, caveirões, polícia militar e civil, exército, marinha, enfim, todo aquele aparato punitivo repressivo. Assim pensei, até conversar com moradores.

Em reunião com algumas lideranças do complexo do Lins, formado por 15 comunidades, tomei conhecimento de que três pessoas foram assassinadas nas semanas da instalação da UPP. As armas sumiram, mas o tráfico, com certeza, não. Estávamos ali a pedido dos moradores, mas percebi que nossa única contribuição naquele momento era evitar covardias que contra os mesmos são praticadas nas instalações dessas unidades. Na realidade, o que existia era o silêncio, em razão do medo do estado de exceção.

Fiquei impressionado com a chegada, logo em seguida à presença de todo aquele aparato repressivo, da tropa da SKY. Em torno de 50 jovens vestindo o uniforme da empresa, portando panfletos e contratos, abordavam de uma forma meio ostensiva vários moradores. Chegavam os vendedores da modernidade com toda a sede do lucro, ali onde falta saneamento básico, como se dissessem que tinha acabado o GatoNet e entrava agora o capital “legal”.

É o aparelho repressivo de Estado abrindo as portas para a chegada dos mercados da TV por assinatura, da cobrança da luz, gás, internet, mas nada de regularização das moradias. Bem mais conscientes da situação, os moradores disseram que aquelas comunidades nasceram de negros alforriados pela abolição da escravatura. Famílias centenárias que até hoje não tiveram suas propriedades reconhecidas pelo Estado, o que dificilmente virá a acontecer com a chegada da UPP, mesmo com a Lei Federal do programa Minha Casa Minha Vida e Regularização Fundiária de Interesse Social. Para a festa das construtoras, ficou apenas a primeira parte do programa, e nada de regularização Fundiária.

Por fim, os moradores disseram que ninguém foi informado da data e hora da chegada da UPP, enquanto a SKY já sabia de tudo. Essas unidades são vendidas como mercadorias pelos meios de comunicação de mercado, anunciando as tais beneficiadas famílias. Sem saneamento básico, sem reconhecimento de suas propriedades, sem bons hospitais, sem boas escolas e com esta repressão ostensiva ao funk, samba, candomblé, umbanda, maconha, enfim, excluídos de sua própria cultura, lhes sobrando tão pouco, os moradores passarão a pagar todos os gatos possíveis das gambiarras do sistema capitalista financeiro cognitivo.