Legalização do cultivo de cannabis no Uruguai fez crescer número de usuários cadastrados em associações; a Revista Brasileiros foi até lá e conferiu o cotidiano de uma delas.

O dia em que Joaquín Fonseca teve uma das piores brigas de sua vida com a mãe foi o mesmo em que ele resolveu abandonar o emprego como gerente de uma grande marca de cigarros e abrir seu próprio negócio, uma loja de insumos e acessórios para usuários de maconha em uma rua de Cordón, bairro residencial de Montevidéu.

Aconteceu em julho de 2014, depois de um longo período em que ele e seu sócio passaram procurando um local ideal para a montagem do estabelecimento. Decidiram por uma esquina grande, arborizada, próxima à Avenida General Artigas, uma das mais importantes da cidade, e ali iniciaram o que é hoje o Grow Shop mais conhecido da capital uruguaia. “Minha mãe sabe que eu fumo maconha desde que eu comecei, com 18 anos, mas se recusa a aceitar a ideia de que eu forneço materiais para que outras pessoas também usem”, revela. “Eu não tenho problemas com isso, mas é óbvio que também não me sinto confortável em pensar que minha mãe reprova o meu trabalho”, completa.

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Joaquín com a camiseta do Campeonato de Cannabis do Uruguai, que ele também organiza – Foto: Vinícius Mendes

Hoje, um ano depois da inauguração, o estabelecimento, chamado de Planeta Ganja, também serve como um tipo informal de sede para o Club Saltiva, um dos grupos de cultivadores da planta que começaram a crescer depois que a droga foi legalizada no país no ano passado.

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Joaquín com a camiseta do Campeonato de Cannabis do Uruguai, que ele também organiza – Foto: Vinícius Mendes

Como a Planeta Ganja, há outras dez franquias deste tipo de comércio em Montevidéu, que vendem desde apetrechos simples, como chaveiros com desenho de folhas de maconha, até complexas estruturas feitas a partir de papel alumínio que servem para armazenar a planta durante o seu período de crescimento, como uma espécie de cabana, que custam até US$ 1000 em determinados locais.

A maior parte dos clientes, no entanto, vai ao Planeta Ganja procurando adubos especiais, cachimbos personalizados e até orientações sobre a melhor maneira para cuidar das plantas que mantém em casa. “Toda hora chega gente aqui com uma foto no celular da planta que está cultivando e me pergunta qual fortificante é melhor, qual é o melhor período para cortar as flores, se as folhas estão fortes, essas coisas. Eu me tornei um orientador do cultivo da maconha”, diz.

No dia em que a reportagem de Brasileiros visitou a Planeta Ganja, Joaquín precisou interromper a entrevista quatro vezes para orientar seus clientes sobre diferentes dúvidas em relação ao cuidado com a árvore da maconha. O respeito que ele ganhou entre os usuários vem, em grande parte, do fato de ele também ser presidente e fundador do Club Saltiva, um dos vários clubes uruguaios que, a partir de diferentes perspectivas, reúnem pessoas que querem ter uma planta ou um lugar para compartilhar o fumo. Assim como a maioria dos clubes, o Saltiva não tem uma sede específica para uso da maconha e, assim, ele usa o espaço da Planeta Ganja para distribuir o produto nos dias do mês em que ele precisa entregar a cota dos seus associados.

Para entrar no Saltiva, uma pessoa precisa pagar uma taxa de matrícula de US$ 400 no ato da inscrição e mais 2500 pesos uruguaios por mês (R$ 320) para ter, então, direito a 40 gramas de flores de maconha por mês. Cada membro do clube pode ter, no máximo, seis plantas em seu nome, como determina a lei, mas Joaquín não permite que os associados vejam as plantas in loco na câmara onde são cuidadas. “O trato com a maconha não é muito diferente do de outras plantas, mas como queremos evitar contaminações e até preservar a planta de todo mundo, não deixamos ninguém entrar. Imagina se uma praga atinge a plantação? O que vou dizer aos meus clientes?”, conta. Sempre que lhe é pedido, Joaquín envia fotografias da plantação para seus clientes via e-mail ou o aplicativo WhatsApp, de compartilhamento de mensagens e, em um dia do mês, convoca todas as pessoas do grupo para distribuir a cota reservada para cada membro. Nesta data, ele fecha as portas, coloca todo mundo para dentro e agrupa as pessoas em uma sala no interior do pequeno prédio onde funciona o Planeta Ganja e a Asociacion de Estudios del Cannabis del Uruguay (AECU), da qual ele também faz parte.

Com o dinheiro que recebe dos membros do Club Saltiva, Joaquín paga o salário de dois jardineiros e de um agrônomo, o aluguel do terreno que utiliza para fazer o plantio e os produtos importados que usa para fortalecer as plantas. Por ser uma associação sem fins lucrativos, ele diz não ganhar nada com a quantia mensal que recebe dos 40 membros cadastrados atualmente no seu clube. Pela lei uruguaia, cada clube pode ter, no mínimo, 15 pessoas, e no máximo 45, e ainda é permitido ter no máximo, 99 pés de maconha. Quando um novo membro se matricula, as mudas de suas plantas são retiradas de uma planta-mãe, que são cultivadas apenas para “clonar” novas árvores, dependendo da necessidade. Estrangeiros não são aceitos, exceto os naturalizados uruguaios, apesar da insistência de turistas, em sua maioria, brasileiros. “Todos os dias surge alguém do Brasil aqui querendo ou comprar um cigarro de maconha. A gente dá risada e brinca: ‘volta para o seu país e lute pela legalização lá também’”, se diverte ele.

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No futuro, a ideia de Joaquín é montar uma sede para que todos os associados possam se conhecer melhor e compartilhar algumas horas fumando maconha. “Tem alguns clubes que organizam encontros em dias de jogos de futebol na televisão ou que combinam apenas para fumar juntos, o que é muito legal”, diz. Não se tem um número exato, mas o governo uruguaio acredita que existam outros 30 clubes de maconha em Montevidéu, sendo que quatro deles ainda funcionam de modo irregular.

Como a existência dos clubes é recente, há muita diferença entre o modo de funcionar de cada um. Assim como o Saltiva, a maioria deles aluga um terreno comum, monta uma cobertura de lona no local onde as plantas serão cultivadas e distribui as gramas permitidas mensalmente. No entanto, alguns clubes mais luxuosos cuidam da plantação em salas indoor, que necessitam de mais recursos para funcionar, pois dependem de luz artificial e paredes personalizadas que rebatam a iluminação para fortalecer a planta. Nestes casos, a mensalidade pode chegar até 6000 pesos uruguaios (R$ 720).

O cotidiano do Saltiva, como não poderia deixar de ser diferente, gira ao redor da imensa plantação de maconha que o local abriga: pela manhã, o trabalho consiste em ferver cascas de banana em uma grande panela com água para regar as mudas mais novas. Segundo eles, a riqueza de potássio da fruta fortalece os galhos da vegetação. Depois, os jardineiros e agrônomos passam pelos estreitos corredores do clube analisando folha por folha, flor por flor, ramo por ramo das 99 árvores e, em seguida assim, cuidam da terra, da quantidade de luz que entra pelas lonas e dos cortes que as plantas mais velhas necessitam para não morrer.

A média dos membros do Club Saltiva é de homens de 30 a 35 anos, de classe média, solteiros e que não têm experiência no cultivo de nenhum tipo de planta ou, em casos mais específicos, não podem ter a árvore da maconha em casa por motivos particulares. “Tem gente que mora com os pais e não pode ter um pé no jardim de casa. É comum”, conta Joaquín. Entre os associados, há alguns jovens de 18, 19 anos, e também dois idosos na casa dos 60.

A lei

O debate sobre a regulamentação da maconha no Uruguai começou em dezembro de 2013, quando uma lei que previa a regulação do mercado da planta pelo Estado foi aprovada no parlamento do país. Segundo o documento, a regra iria controlar o comércio e a produção para usos recreativos, medicinais, industriais e espirituais de maconha. Assim, o Uruguai foi o primeiro país do mundo a legalizar plenamente a maconha.

Nas ruas de Montevidéu é comum ver pessoas fumando cigarros de maconha. Uma lei da década de 80 já permitia fumar nas ruas e em lugares públicos, proibindo apenas locais fechados, assim como a regra para o cigarro comum. “O que o governo fez foi regulamentar uma coisa que os uruguaios já fazem há muito tempo. Todos nós fumamos maconha e todos nós temos uma planta em casa. Não adianta esconder isso. Assim, acredito que legalizar foi apenas tornar, de fato, legal algo que já era parte do nosso cotidiano”, conta o mecânico Daniel Sinoni.

Segundo o instituto de pesquisas Equipos Mori, 60% dos uruguaios são contrários ao ato do governo uruguaio em relação a maconha. O ex-presidente José “Pepe” Mujica, que estava no poder quando o projeto foi aprovado, defende a legalização para tentar mudar “a fracassada guerra do Estado contra o tráfico de drogas”. Seu sucessor e atual chefe do Executivo do Uruguai, Tabaré Vázquez, ainda não disse como vai tratar do tema.

  • joselito

    Na parte em que fala sobre “Como a Planeta Ganja, há outras dez franquias deste tipo de comércio em
    Montevidéu, que vendem desde apetrechos simples, como chaveiros com
    desenho de folhas de maconha, até complexas estruturas feitas a partir
    de papel alumínio que servem para armazenar a planta durante o seu
    período de crescimento, como uma espécie de cabana, que custam até US$
    1000 em determinados locais.” está se referindo a estufas ou tendas ou cabines de cultivo como são chamadas. Este material reflexivo do revestimento interno dela não é de forma alguma papel alumínio, geralmente é um material conhecido como Mylar.