Semana passada, nosso companheiro Ras Bernardo, músico que defende a legalização da ganja, sofreu uma tentativa de homicídio. Chegando à noite em sua casa, foi alvejado por um tiro de escopeta calibre 12 mm. Ainda conseguiu correr e foi operado às pressas e salvo pelo equipe médica do Hospital da Posse, Nova Iguaçu.

O que leva alguém a tentar matar uma pessoa que não faz mal a ninguém e vive na paz do reggae e de Jah? A Casa do Ras é o berço do reggae de Nova Iguaçu e de Belford Roxo, que tomou conta do país, a voz da Baixada Fluminense e do Cidade Negra.

Não sou um profundo conhecedor dessa história, pois conheci Ras somente em 2010, mas, só de ter passado uma noite num pequeno bar de Belford Roxo, deu para sentir a importância do vocalista e sua umbilical relação com reggae da Baixada que encantou o Brasil e o mundo. O reggae está para Baixada como o rock está para Brasília. Nessa noite, Ras falou da satisfação de estar ali tocando no underground de suas raízes, ele que já viveu a fama de grandes palcos internacionais.

Logo agora que Ras fazia de sua casa o centro da paz e do amor e sua voz começava a ecoar novamente pelo Estado do Rio de Janeiro, ele sofre esse absurdo atentado. Daí podemos concluir que muito ódio saiu daquele tiro de escopeta, contra um homem negro, que luta pela legalização da maconha e vive cheio de amigos que fazem do reggae a alegria cotidiana de sua casa. Muitos não sabem do engajamento de Ras na causa, mas defender a legalização da maconha na Baixada não é pra qualquer um. Todos que defendem essa posição em Nova Iguaçu sabem que podem sofrer o mesmo atentado. Por tudo isso, Ras defende a legalização com muita convicção e consciência política.

Enquanto nas praias da zona sul carioca a polícia persegue e prende quem usa o pito do pango, na Baixada Fluminense a barra é muito mais pesada. Vários casos são resolvidos à bala contra a turma da paz. É o histórico preconceito racial somado à luta pela vida e contra a guerra que a maconha carrega, é a acumulação de poder punitivo, que estigmatizou os maconheiros como vagabundos, que só gostam de vadiar e não querem trabalhar. Muita acumulação de preconceito traz o anagrama de cânhamo.
Escrevo esse texto em homenagem à vida e com a alegria de saber que Ras Bernardo está vivo. Valeu meu irmão, você é muito forte e Jah está realmente contigo.