No dia 29 foi ao ar o ultimo capítulo de Breaking Bad, que muita gente considera o melhor seriado de TV de todos os tempos. Confira a opinião de Denis Russo, via Superinteressante, sobre a maneira espetacular como o seriado americano conseguiu mostrar o efeito incrivelmente destrutivo que a chamada Guerra Contra às Drogas pode ter na vida de uma comunidade. Não se preocupe, pode ler tranquilo, que ele não vai contar como acaba.

A saga que terminou ontem começou cinco anos atrás, quando um professor fofinho de química, Walter White, foi diagnosticado com câncer de pulmão, no primeiro episódio da primeira temporada. Mister White então percebeu que iria morrer sem ter feito nada de grandioso na vida e que deixaria sua família em dificuldades financeiras. Foi quando ele ficou sabendo que havia um jeito mole de ganhar milhões: produzir metanfetamina, uma droga química tranqueira usada por quem está no fundo poço, um degrau abaixo do crack em termos de auto-destruição. A partir daí, são 60 episódios frenéticos e viciantes, nos quais o professor bonzinho vai lentamente se transformando num dos personagens mais cruéis e sanguinários que já estrelou uma série televisiva.

Mister White nada mais era do que um cinquentão em crise de meia-idade, insatisfeito com a vida que havia levado, que subitamente se viu acuado entre sua existência fracassada e a morte iminente. Mas o governo de seu país criou uma saída para ele. Graças à Guerra Contra as Drogas, existe um mundo paralelo nas sombras, onde circulam quantidades astronômicas de dinheiro sem nenhuma fiscalização ou controle. Ao vislumbrar esse mundo, aquele sujeito desesperado enxergou uma oportunidade de recomeçar tudo do zero e de escrever uma nova história em muito pouco tempo.

É o que a Guerra Contra às Drogas faz: dá uma chance de glória e fortuna aos desesperados, aos desenganados, aos loucos psicopatas, aos derrotados, aos violentos, aos animais acuados, a quem não vê mais saída.

Governos não têm o poder de decidir por nós – o máximo que eles podem fazer é colocar incentivos para nos convencer a agir de um jeito ou de outro. Foi isso que o ex-presidente americano Richard Nixon não compreendeu quando, em 1971, declarou a Guerra Contra as Drogas basicamente para acabar com a maconha. Nixon ingenuamente acreditou que proibir as drogas faria com que elas desaparecessem. O que aconteceu foi bem diferente disso. Ele criou um incentivo para que as pessoas não comercializassem ou usassem drogas (a ameaça de prisão), e ao mesmo tempo um incentivo bem maior para que elas fizessem exatamente o contrário (o mercado bilionário que surgiu do nada, sem nenhuma fiscalização). Resultado: milhões de pessoas responderam racionalmente aos incentivos e hoje as drogas são muito mais perigosas e lucrativas que antes.

Incentivos poderosos são difíceis de resistir, como exemplificam vários dos outros personagens de Breaking Bad – gente mais ou menos correta e equilibrada que acabou arrastada pelo tsunami de dólares que corre no mundo paralelo. Uma das coisas geniais do seriado foi mostrar que nem todo mundo é igual no tráfico. Há lá os loucos assassinos, claro. Há também gente perdida e triste, que precisa mais de ajuda do que de cadeia. E há os empresários frios e calculistas, que vendem drogas assim como poderiam vender frango frito, só porque enxergam uma oportunidade de dinheiro fácil – se essa oportunidade não existisse talvez eles fossem “cidadãos de bem”. É assim também no mundo real.

A Guerra Contra as Drogas é um conjunto de incentivos que foi colocado em prática 50 anos atrás e que tornou o mundo mais violento e perigoso, desviando trilhões de dólares para o bolso de criminosos e para a inútil tentativa de reprimir as forças do mercado. Graças a essa Guerra, hoje existem substâncias como a metanfetamina e o crack, mais lucrativas que a maconha que Nixon tentou erradicar.

Enquanto a saga de Walter White termina, os principais países do mundo dedicam-se a imaginar um outro sistema de incentivos, planejado para reduzir os danos causados pelas drogas e os lucros do mundo paralelo. Um sistema que não transforme gente frustrada em psicopata, esposas dedicadas em lavadoras de dinheiro, dependentes em assassinos. Talvez esse novo sistema gere roteiros menos poderosos para seriados, mas o mundo ficará melhor.

Por Denis Russo Burgierman*
Via, SuperInteressante

*Diretor de redação da Superinteressante. Escreveu o livro O Fim da Guerra, sobre o futuro das políticas de drogas, participa da comunidade TED, dá aulas na Eise (Escola de Inovação em Serviços) e é membro da Rede Pense Livre – Por Uma Política de Drogas que Funcione.